Fidelidade ao eleitor

João Bosco Rabello

30 de julho de 2014 | 15h21

Em política, a única fidelidade é prestada à perspectiva de vitória. A eleição de Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral que devolveu o poder aos civi, em 84, depois da longa ditadura no país, provou que nem o regime militar conseguiu impô-la para fazer o sucessor do presidente João Figueiredo.

Àquela época, a formação de uma frente liberal com dissidentes do regime viabilizou a aliança vitoriosa que acabou fazendo de José Sarney presidente da República, com a morte de Tancredo.

Dissidente governista, Sarney uniu-se ao então MDB e viabilizou a frente que derrotaria Paulo Maluf na eleição indireta.

Quando percebeu que sua lista de eleitores parlamentares não tinha a confiabilidade que lhe atribuíra, Maluf recorreu ao instituto da fidelidade para cobrar o voto partidário, numa tentativa de vestir a camisa de força nos seus próprios aliados.

Com a derrota de Mário Andreazza, preferido dos militares como candidato oficial, Maluf ocupara esse espaço, mas sua rejeição na caserna mostrou que as negociações de bastidores conduzidas por Tancredo tornariam a fidelidade mera peça de ficção.

Maluf perdeu no Tribunal Superior Eleitoral seu apelo para enquadrar os infiéis atraídos pela candidatura que gerava expectativa de vitória. Acrescente-se ao episódio a fragilidade institucional que ainda vigorava, e a insegurança a ela correspondente, e tem-se a consolidação do exercício político como valor maior que a regra formal.

A memória vem a propósito da luta do vice-presidente Michel Temer, reinvestido no cargo de presidente do PMDB, para enquadrar o candidato do partido, Paulo Skaf, que resiste a abrir seu palanque em São Paulo à presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição pelo PT.

Temer cobra a Skaf apoio a Dilma em São Paulo, onde o índice de rejeição da presidente é de 50%, o que explica a objeção do candidato do PMDB. E o faz em circunstância que nem o aspecto legal o apoia: com a quebra da verticalização pelo Congresso, as alianças regionais não precisam estar alinhadas à nacional.

Resta, pois, o argumento político, que não está com o presidente do PMDB, mas com o candidato do partido. Segundo na disputa eleitoral, Skaf tem biografia e perfil ideológico que o tornam o adversário natural do PT, com o qual o eleitor se identificou na proporção das intenções de voto que lhes são computadas nas pesquisas.

A pressão do vice-presidente e do PT, portanto, é a de que Skaf reme contra a corrente para comprometer seus mais de 20% nas pesquisas abraçando quem tem o dobro desse percentual em rejeição, certamente eleitores que votarão, nele, Skaf, e no candidato do PSDB à reeleição, Geraldo Alckmin, com 45% das intenções de voto.

Para Alckmin seria ótimo a capitulação do presidente da Fiesp ao vice-presidente e ao PT, pois seria o beneficiário natural da transferência dos votos perdidos por Skaf no caso de ceder às pressões por Dilma.

Skaf hoje é uma terceira via bem sucedida, à frente do PT nas pesquisas, quebrando por ora a polarização histórica no Estado. Esse é o objetivo de sua candidatura e atender ao PT equivale a dele abdicar em favor de uma candidata que não gera expectativa de vitória no Estado, nem seu partido, como fica claro na estagnação do candidato regional do PT, Alexandre Padilha, com 4% nas pesquisas.

O cenário de São Paulo não é diferente do que se verifica em outros Estados, como Rio de Janeiro, Bahia, Ceará, para ficar nos mais notórios, em que a dissidência alta fez do PMDB parceiro regional do PSDB, com reflexos na campanha nacional.

E o fenômeno não se restringe ao partido de Temer. O PSD, aliado da reeleição de Dilma, está acertado com o PSDB e PSB em mais de uma dezena de Estados, em recorrente demonstração de prevalência da realidade política sobre os acordos de cúpula.

O diagnóstico é simples: a candidatura da presidente Dilma Rousseff não gera a mesma expectativa de 2010, o que até certo ponto segue a lógica dos desgastes inerentes a governos. No caso atual, agravado pela crise econômica, cuja maquiagem passou a ser o foco da gestão da área econômica.

Para Skaf,  fidelidade a Temer significa infidelidade ao eleitor, e ele já parece ter feito sua escolha. Para o governo, a insistência pública amplia a percepção do eleitorado sobre o declínio do PT em São Paulo, no contexto da perda crescente de capital político pelo partido.

 

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