Feliciano já tem uma comissão para chamar só de sua

João Bosco Rabello

23 Abril 2013 | 17h00

Do Analise Política on Line, serviço da Agência Estado para assinantes, recolho o cenário pós – “guerra santa” na Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que agora o Pastor Feliciano pode chamar de sua. Ao final, comento.

 “A renúncia de deputados do PT da Comissão de Direitos Humanos, anunciada semana passada, foi um gesto político que, na prática, cria uma comissão evangélica na Câmara, com poder exclusivo em seu âmbito.

De resto, desde sempre o objetivo do grupo do polêmico pastor Marco Feliciano (PSC-SP) ao tomar de assalto a comissão, comandada historicamente por militantes de esquerda.

O afastamento desses deputados não impede que a comissão continue a trabalhar e a votar propostas. O colegiado é formado por 18 titulares e mesmo número de suplentes. Precisa de ao menos 10 deputados para funcionar, e soma 13 com a saída dos quatro titulares do PT e um do PSol.

Esses 13 deputados, dos quais oito integram a Frente Parlamentar Evangélica, já têm tentado se reunir mesmo em meio ao tumulto gerado pelos protestos contra a presidência de Feliciano.

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), tem poder para indicar de ofício os integrantes faltantes. Mas ele só é obrigado a decidir na ausência de quórum que inviabilize o funcionamento da comissão.

Não há indicações de que, sendo facultativo, Alves tenha interesse político em fazê-lo. Ele deixou de tomar essa atitude em relação à Comissão de Direitos Humanos quando as comissões foram formadas em março, mesmo tendo indicado membros de outras comissões na época. Até agora, por exemplo, PSDB e PP têm apenas suplentes.

O PMDB de Henrique Alves também foi quem permitiu ao PSC integrar a comissão, na qual a sigla não teria assento. Os peemedebistas cederam duas vagas de titulares e duas de suplentes à legenda evangélica. Marco Feliciano ocupa uma dessas vagas cedidas pelo PMDB. O PSC também ocupa uma suplência oferecida pelo PTB, que também cedeu vaga de titular a outro evangélico, o deputado Otoniel Lima (PRB-SP).

A ocupação da Comissão de Direitos Humanos foi uma jogada orquestrada pela bancada evangélica no Congresso com o objetivo de barrar projetos controversos, como o casamento gay, e contou com o apoio dos grandes partidos.

Os protestos contra Feliciano apenas deram visibilidade à manobra. E a renúncia de deputados do PT e do Psol consolida a maioria que os evangélicos desejavam há muito tempo”.

Minha opinião: A reação ao Pastor Feliciano pela via da criminalização de suas opiniões foi errada desde o início. Ele estará sempre escudado na liberdade doutrinária religiosa. Mais eficiente, por certo, seria criminalizar a exploração da fé religiosa no templo onde produz suas desequilibradas e ofensivas interpretações de textos bíblicos.

O vídeo em que cobra a um fiel a senha do cartão de crédito materializa de forma irrecorrível a mercantilização religiosa em proveito próprio, reforçada na sua loja virtual (http://www.marcofeliciano.com.br/socio-contribuinte) , em que chega a usar um evangelho de São Marcos para escalonar em três os valores da “contribuição”do fiel, que também medem o grau de amor a Deus de cada doador, que pode escolher como fará chegar a Deus sua doação – se por cartão de crédito ou boleto bancário.

É o que se pode chamar de tradução criminosa do texto bíblico para auferir lucro. Um trecho:

O Evangelista Marcos mostra um ensinamento de Jesus sobre estes semeadores. Ele disse que os “semeadores saíram a semear” (Mc 4.3) e encontraram a “boa terra, e deu fruto, que vingou e cresceu, produzindo a trinta, a sessenta e a cem por um” (Mc 4.8), isto é, o resultado foi surpreendente, a colheita foi um sucesso, e cada semeador obteve um resultado de acordo com a sua fé. Jesus finaliza dizendo, “quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mc 4.9). Por que Jesus disse isso? Porque a seara é grande, mas poucos são os semeadores. (Lc 10.2)”.Esta é a razão de escolhermos os valores de R$ 30,00 R$ 60,00 e R$ 100,00 para os Parceiros do Avivamento. São semeadores de fogo lançando em terra abençoada, e da qual colherão muitas bênçãos”.

A loja do Feliciano é um primor de como fazer dinheiro a partir da fé. Ali vende-se tudo, de kit espiritual a DVDs, documentários e Cds.

É caso para Conselho de Ética, mas o temor geral de se indispor com o capital eleitoral dos evangélicos é a principal blindagem de Feliciano.

O Procurador-geral, Roberto Gurgel foi também por esse caminho do discurso discriminatório racista e homofóbico, que não parece o mais eficaz. Melhor seria o Ministério Público demonstrar que o templo de Feliciano é tudo, menos Igreja.

No âmbito congressual provavelmente haverá a tentativa de se transferir para a Comissão análoga do Senado, comandada pelo PT, os debates e ações sobre os direitos humanos.