Favoritismo é de Cunha

João Bosco Rabello

28 de janeiro de 2015 | 15h56

Salvo algum fato, hoje na órbita do imponderável, o candidato do PMDB à presidência da Câmara, Eduardo Cunha (RJ), tem a vitória consolidada no próximo domingo, quando se realizam as eleições para os cargos do Legislativo. Se a eleição fosse hoje,  estaria eleito.

Nas contas do líder do PMDB, o apoio à sua candidatura já soma 330 votos. Seria mais uma conta de candidato, não fosse outra, de seus adversários, que lhe confere algo entre 270 a 280 votos, mais que suficiente para sua vitória no primeiro turno.

Para que isso ocorra, é preciso que um candidato obtenha 257 votos. Menos que isso impõe o segundo turno. Na atual disputa, a conta menor a favor de Cunha é da oposição à sua candidatura, o que legitima a sua própria contabilidade vitoriosa.

Cunha conseguiu polarizar a disputa entre ele e Arlindo Chinaglia, do PT, tornando a candidatura oposicionista de Julio Delgado (PSB-MG), fonte de dissidência eleitoral, do que é prova o comportamento ambíguo do PSDB, que lhe formalizara apoio em recíproca à aliança na eleição presidencial.

Ocorre que o voto é secreto e Cunha certamente obteve apoios entre os tucanos, conforme se extrai da declaração do presidente da secção paulista do PSDB, Duarte Nogueira, ao reiterar o compromisso com o deputado socialista, com a ressalva de que o voto sendo secreto não há garantias. “Não posso abrir o voto do deputado”, esquiva-se.

Um adversário de Cunha , diante do contexto, afirma que sua vitória no primeiro turno dependerá do comportamento da oposição – ou seja, do PSDB e do DEM. E empenha-se em convencer a oposição de que o desembarque da candidatura de Delgado, pode ser um “erro histórico”, pois o discurso de independência do líder do PMDB não é para valer.

Uma vez eleito, segundo defensores da candidatura do PT, Cunha comporia com o governo ou, pelo menos, não seria hostil ao Planalto no cargo, mas ampliaria seu poder de barganha junto ao governo, que é também o propósito do seu partido. Se derrotado, especialmente por interferência do Planalto, levaria o partido para uma oposição disfarçada ao governo.

Por esse raciocínio, nenhum resultado é bom para o governo. Se ganha, Cunha fortalece o PMDB sob sua liderança. Se perde, mantém-se forte e hostil ao Planalto, com aval de seus liderados, pois o que está por trás da disputa é a luta por supremacia com o PT.

É esse o dilema que impõe ao Planalto cuidado com as ações em favor de Chinaglia, um cenário mais eficiente para estabelecer a neutralidade, ainda que dissimulada, para não dar pretexto a que eventual derrota de Cunha transforme a bancada do PMDB na Câmara em fonte de oposição mais incômoda que a própria Oposição.

Eleições legislativas envolvem fatores congressuais específicos, que não as limitam apenas à relação entre oposição e situação. Outras questões estão em jogo, como a composição das mesas diretoras e das comissões estratégicas das duas Casas, o que concorre com vantagens que o governo possa oferecer aos seus aliados.

O PSDB, por exemplo, tem a garantia de Cunha de ocupar a primeira vice-presidência da Casa, tratamento diferenciado ilustrativo das negociações no âmbito do Poder Legislativo, impermeáveis em alguma medida à ação de governos. Acordos são feitos em face dos interesses partidários, o que a campanha de Cunha já contemplou com muita antecedência em relação aos seus concorrentes.

Se os adversários de Cunha estiverem certos em suas avaliações, a oposição será decisiva para a vitória do líder do PMDB no primeiro turno, mas não para garantir sua vitória no processo, que já parece clara a essa altura.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.