Expectativas confirmadas

João Bosco Rabello

19 de dezembro de 2014 | 19h01

A se confirmar no curso do inquérito a ser aberto pelo Supremo Tribunal Federal o envolvimento dos parlamentares citados pelo ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, publicados hoje com exclusividade pelo jornal O Estado de S.Paulo, tem-se, pelo menos, um problema já para o futuro ministério da presidente Dilma Rousseff, e um caminhão de dramas para PT , PMDB e PP.

 O ainda presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que rejeita o ministério da Previdência, que seu partido que trocar pelo da Ciência e Tecnologia, passa a ser inconveniente para a escalação prevista no segundo mandato presidencial.

Ainda que o inquérito forneça elementos para que sua menção não tenha a dimensão que projeta, a simples inclusão nas investigações de seu nome representa sério obstáculo à sua nomeação. Sem mandato, Alves será processado na primeira instância. Se ministro, permanecerá na leva que tem a prerrogativa de foro especial, portanto, no STF.

Não é de se imaginar que a presidente reeleita, em conjuntura política e econômica de crise, possa se dar ao luxo de ter um ministro investigado. Falta ainda o conteúdo da delação premiada de Alberto Yousseff, já reconhecida pelo Procurador Geral, Rodrigo Janot, que pede sua homologação ao ministro do Supremo, Teori Zavascki, que pode acrescentar outros nomes ministeriáveis.

Os nomes de Costa confirmam o número de parlamentares que denunciou – “algumas dezenas” -, mas não esgotam a relação de envolvidos. Do PP, por exemplo, o ex-diretor cita 10 nomes, mas Yousseff já declarara que do partido só se salvam “uns dois ou três”.

Assim como concorrem no tamanho das bancadas no Congresso, PT e PMDB empatam nas citações de Costa – com oito nomes cada um. Tanto um quanto outro, porém, têm entre os citados lideranças expressivas das legendas, dentro e fora do Congresso, como os senadores Renan Calheiros (AL), Romero Jucá (RR), e Waldir Raupp (RO) , os ex-governadores Sérgio Cabral (RJ) e Roseana Sarney (MA) e o ministro Edison Lobão, das Minas e Energia, que deve retornar ao Senad, no caso do PMDB.

O PT concorre com o rival no governo também em figuras emblemáticas da legenda. O seu líder Humberto Costa (PE) puxa a fila do Senado, onde entram ainda a ex-ministra da Casa Civil de Dilma, a senadora Gleisi Hoffmann (PR), Delcídio Amaral (MS) e Lindbergh Farias (RJ), além do governador do Acre, Tião Viana e o deputado Cândido Vacarezza (SP), que não se reelegeu e já está citado também por Meire Pozza, ex-contadora de Yousseff, por suposto envolvimento em desvios no Instituto de Previdência do Tocantins.

O cruzamento dos nomes dos três principais partidos reúne 26 políticos, entre parlamentares , ministros, ex-ministros e ministeriáveis , aliados do governo Dilma Rousseff. Os nomes da oposição , por ora, se limitam a dois já falecidos – o ex-governador e candidato à presidência pelo PSB, Eduardo Campos, e o ex-presidente do PSDB, Sérgio Guerra, confirmando que a presença da oposição será pontual dada o longo tempo em que está fora do poder.

O dano político, portanto, é grande, mesmo limitada a lista à delação premiada apenas de Paulo Roberto Costa. Se o segredo de justiça atrasa as avaliações da presidente Dilma para a formação do ministério de seu segundo mandato, esse vazamento parcial já lhe dá ideia do tamanho do problema a ser enfrentado.

Com o nome na relação, o presidente do Senado, Renan Calheiros, tem sério obstáculo à sua pretensão de releger-se para o cargo, consolidando a ideia de que o senador Eunício de Oliveira (PMDB-CE) pode vir a ter o apoio do partido e do governo, mas com muita coisa ainda para acontecer.

Tem já no atual ministro da Previdência, de saída do cargo, Garibaldi Alves PMDB-RN), forte concorrente. Alves pode ser o nome alternativo para o governo, que pode consolidá-lo se nomear Eunício para um ministério.

A crise pode facilitar as coisas para o governo, a partir do enfraquecimento de líderes de sua base de sustentação, se o governo disso puder se aproveitar. Mas tem problemas de outro lado, com o envolvimento na versão de Costa, de ex-ministros como Gleisi Hoffmann e Antônio Palocci – este mais problemático pela sua proximidade com as campanhas presidenciais, principalmnente a de 2010, quando arrecadou para a candidata vitoriosa.

Palocci pode significar dinheiro desviado na campanha presidencial, se confirmada a acusação de Paulo Roberto Costa – e conhecida a dimensão do envolvimento do ex-ministro da Fazenda de Lula e da Casa Civil de Dilma, defenestrado de ambos por escândalos que bateram à sua porta e ameaçaram contaminar o Planalto.

Essas investigações que chegam agora ao STF são apenas o começo de um processo, que promete ser longo, de assepsia na vida pública brasileira, o que insere a circunstância atual entre as que só tendem a piorar. O que se sabe é ainda muito pouco do que está por vir, o que autoriza o diagnóstico pessimista.

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