Engajamento debochado de Lula compromete relações entre oposição e futuro governo

João Bosco Rabello

28 de outubro de 2010 | 14h05

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Num só dia, Lula conseguiu produzir impropérios de toda ordem. Foto: Celso Junior/AE

O presidente Lula não desconhece, mas parece determinado a desconsiderar, que uma eleição não termina com a vitória ou a derrota – de um ou de outro candidato. Ela gera efeitos para quem vem depois.

Entregue ao mais completo deboche e inebriado com a popularidade que as pesquisas lhe atribuem, cria um clima de beligerância na campanha que determinará o grau de civilidade nas relações futuras entre governo e oposição, seja qual for o eleito, após seu retorno à planície.

Retorno com o qual parece inconformado, o que deixa mais claro a cada dia. “Eu preferia que este dia nunca tivesse chegado”, disse ontem, a uma platéia de militantes, antecipando em dois meses a data em que deixará o Planalto.

Num só dia, Lula conseguiu produzir impropérios de toda ordem. Voltou a debochar do adversário político, a quem dá tratamento de inimigo, sugerindo que use capacete para se proteger das “bolinhas de papel” na campanha de rua.

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Foto: Tasso Marcelo/AE – 20.10.2010

Mesmo sabendo que houve um confronto de rua, com pancadaria, provocado por simpatizantes da candidatura do PT. E após o primeiro debate do segundo turno, em que a agressividade de Dilma Rousseff foi explicada pelo seu marqueteiro como uma estratégia para “levantar o ânimo da militância” –  abalada, como a candidata, pela continuidade da campanha.

Debochou do porcentual dos que, nas pesquisas, não aprovam seu governo, reduzindo esse contingente a 3%, num cálculo próprio que afronta a estatística, dizendo que cabem num comitê de campanha da oposição.

Debochou dos que estudam, voltando a fazer a apologia da ignorância, ao defender que a inteligência é suficiente para a ascensão e o progresso pessoal dos cidadãos. “O tempo de escolaridade mostra conhecimento específico de uma matéria. A inteligência você nasce com ela e aperfeiçoa”. E mais: “Se política se aprendesse na escola, bom presidente seria um cientista político e não um torneiro-mecânico. Essa é a lógica”, insistiu.

Em mais um de seus surtos egocêntricos (cada vez mais frequentes) louvou a si próprio como o melhor presidente que o País já teve. “Não sei se já houve na história do Brasil quem pudesse terminar o mandato como estou terminando”.

E registra sua visão de liberdade de expressão, ao elogiar a imprensa pela publicação de…pesquisas! “Fico muito feliz quando a imprensa publica pesquisa, porque ela me dá 84% de bom”, frisa.

Considerando que a imprensa fora demonizada pelo mesmo Lula por “inventar” o caso Erenice, que confessou à Polícia Federal o que antes negara, temos aí que imprensa boa é a imprensa que elogia, numa inversão absoluta da missão jornalística, cuja essência é a crítica e a fiscalização dos governos e governantes.

Debochou outra vez da Justiça Eleitoral, cada vez mais intimidada pela popularidade presidencial, ao dizer tudo isso num ato oficial de inauguração de uma obra portuária em Santa Catarina, Estado que exortou na reta final da campanha a “extirpar” o DEM pelo simples fato de lhe fazer oposição. Não deu certo: a resposta foi uma derrota acachapante imposta pelo eleitorado local.

Por fim, estimulou com discursos contra a imprensa que avançassem as iniciativas de controle da informação patrocinadas pelo PT em assembleias estaduais que aprovam leis nesse sentido fingindo desconhecer a Constituição.

Esse clima beligerante foi criado sob a perspectiva de vitória eleitoral. Se esta não vier, como não veio no primeiro turno, certamente será vivido pelo governo eleito que continuará a receber tratamento de inimigo em guerra.

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Foto: Celso Junior/AE

Se vencer, Dilma encontrará um ambiente permeado pelo ressentimento político, com escândalos que se inserem no contexto da continuidade e uma mídia motivada a se afirmar como fiscal da sociedade e desafiada pelas ameaças à sua plena liberdade de ação.

É o legado que Lula deixará à sua sucessora, se assim as urnas a confirmarem, não bastasse a missão que já lhe impôs de administrar uma aliança com o PMDB que, de tão complexa ele próprio, Lula, rejeitou.

Trocou-a pela cooptação dos pequenos e médios partidos, abrindo as portas ao mensalão, do qual jamais soube, apesar de avisado da sua existência por adversários e aliados.

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