E Ele voltou

João Bosco Rabello

25 de julho de 2013 | 12h00

“A Dilma não é nada mais que uma extensão da gente lá”. A afirmação do ex-presidente Lula, marcando seu retorno ao cenário político depois de longo silêncio, tem mais de um destinatário. Alguns, na verdade. O tom de alerta a direciona para o PMDB, para a mídia (que ele desancou no mesmo discurso), mas é, principalmente, para o PT e para a própria presidente.

Direcioná-la para os conservadores é mero truque: o PT foi chamado às falas pelo seu líder maior e a presidente, sua afilhada política, sobre quem pesa a imagem de tutelada, foi lembrada de que ocupa o cargo sob o compromisso com o projeto de poder do partido. O chamado, portanto, foi geral.

Ele voltou, como pedia o coro, mas para a campanha da reeleição de Dilma. Afinal, como ele próprio disse, “não preciso ser governo para fazer as coisas neste país”. Melhor assim, colhe bônus (quando houver) e recusa o ônus, como fez durante os protestos de rua, reaparecendo para dissertar sobre as cobranças, como se não dissessem respeito a ele, ao seu governo e ao que terceirizou a Dilma.

Além dos recados, o discurso de Lula revela o temor do agravamento da perda de capital político do PT, ao qual cobra 150% de apoio a Dilma, sugerindo que a hora desaconselha o recurso surrado ao “fogo amigo” contra a presidente. Na verdade, Lula reafirma o conceito de união pela causa maior, o “nosso projeto”, cunhado pelo deputado Paulo Teixeira (SP).

O mais sintomático no discurso, possivelmente, é essa parte. A fidelidade absoluta ao “nosso projeto” é que caracteriza o governo Dilma Rousseff como um governo do PT, embora sua aliança seja a mais ampla de que se tem notícia na política brasileira. Quem do “nosso projeto” divergir passa a ser rotulado como conservador ou fascista, conforme o grau de desgaste que se queira impor ao desafeto.

Do “nosso projeto” pouco ou quase nada se sabe, a menos que possa ser a reunião, sem qualquer metodologia que permita redigi-lo, das infindáveis e variadas teses estapafúrdias , produzidas nas conferências do partido que o próprio Lula, em entrevista ao Estado, ainda presidente, cunhou de “usinas de utopia”.

E que leva partido e governo a um debate interminável sobre direitos civis, subdividindo minorias e criando legislações específicas para cada uma, de forma a produzir uma inusitada duplicidade de leis em paralelo às já existentes, sem qualquer efeito objetivo, a não ser o de preservar, sob o rótulo progressista, a fidelidade eleitoral dessas comunidades.

Daí a preocupação de Lula sobre a proposta do PMDB de redução de ministérios: “Eles não querem acabar com Defesa e Fazenda, mas com a Igualdade Racial”, simbolizando nesta as demais secretarias com status de ministério, teoricamente destinadas aos direitos de minorias e projetos sociais.

O governo plural, para o desenvolvimento e aprimoramento dos serviços, baseados em políticas consistentes, que traduza uma prestação de contas junto ao contribuinte – este se perde no turbilhão de demandas criadas ou absorvidas para compor o discurso da realização social.

Sem projeto, o governo virou um canteiro de obras inacabadas, reunidas sob o guarda-chuva do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), cujo título, confrontado com o atraso das obras, passou a ser irônico. Não há políticas públicas sequer para  segurança, educação e saúde – a primeira ignorada pelo governo, as duas seguintes, alvos de medidas de varejo como o programa Mais Médicos, lançado da noite para o dia, sem envolver o segmento afetado e nem o Legislativo.

Portanto, não se pode compreender, senão como sinal de delírio, a declaração da presidente Dilma ontem, em seminário do PT, de que “mais 10 anos virão”, porque “… nossa estratégia de desenvolvimento exige mais… nos diferencia, mais 10 anos de transformação são possíveis”. Um otimismo que, mesmo retórico, está desautorizado pelos protestos de rua, pela queda vertiginosa nos índices de aprovação do governo e pelo bom senso.

A realidade pode até mudar e confirmar a profecia da presidente quanto a mais uma década, mas não será pela imaginária estratégia de desenvolvimento que atribui a seu governo, até aqui uma peça de marketing. Será preciso mudá-la. Nesse momento, o que diferencia o governo do PT não é mais nível de exigência, como diz no discurso, mas uma década sem qualquer marca na área de infraestrutura que possa ser lembrada positivamente pelo contribuinte.

A falsa disposição do PT para o debate explica, em parte, a paralisia do processo legislativo. A reforma política do partido, por exemplo, não é a mesma dos parceiros de aliança, mas não há a menor brecha para o debate que reduza as divergências e neutralize antagonismos.

Embora o PT pregue o debate, é ele quem o inviabiliza quando desautoriza publicamente um deputado seu indicado pela presidência da Câmara para coordenar as negociações da reforma política, escancarando o desejo, que deveria ser, pelo menos, inconfessável, da indisposição para o debate. Afinal, o defeito do deputado Cândido Vacarezza (PT-SP), e razão de seu veto, é a disposição para o debate.

A reforma tributária também não avança e a discussão sobre a construção de um novo pacto federativo, menos ainda. Os projetos que andam têm sido aqueles que encontram eco no corporativismo da Casa como, por exemplo, a PEC 37, contrária à ampliação dos poderes investigativos do Ministério Público. Que acabou sustada pelas manifestações de rua.

Mais recentemente, na mesma linha, o partido retomou a investida contra o Tribunal de Contas da União (TCU), propondo um controle externo para o órgão, o que não soaria estranho não fosse a particularidade de o TCU ser um braço do Poder Legislativo, a quem cabe nomear seus integrantes.

Por não conseguir lidar com o resultado judicial do mensalão buscou apoio  a propostas que subtraem a independência do Poder Judiciário, conseguindo a simpatia corporativa pelo temor de muitos parlamentares de passarem pelo mesmo crivo futuramente. Ou seja, de denunciante dos tempos de oposição, o PT passou a condenar as investigações. Bastaram 10 anos de poder para a única transformação visível, entre tantas a que se refere a presidente da República.

A decisão da presidente Dilma de não comparecer à reunião do Diretório Nacional possivelmente tem origem na informação prévia de que seria instada a aderir à orientação partidária em temas que ampliariam e elevariam a temperatura da crise na relação, agravando a já comprometida gestão do governo.

Não é outra a reclamação do PT com relação ao governo quando cobra à presidente uma reaproximação com os movimentos sociais – a rede de ONGs a serviço do discurso ideológico do partido, o que representaria uma guinada na direção oposta à cobrança por entrega de resultados na infraestrutura e serviços, verificada nos protestos de rua.

Dilma chegou a vocalizar que sabe ouvir, na carta em que justifica ao PT a sua ausência na reunião do diretório, embora suas reações iniciais às manifestações indiquem que ouviu errado. Plebiscito e reforma política não sensibilizaram os eleitores, conforme atestam as três pesquisas que registraram um governo parado no mesmo lugar, com 30% de aprovação.

Na crise, o PT se fecha em copas e radicaliza posições.

A presidente está naquele ponto de escolha entre governar para o PT ou para o país.

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