Duplo erro político

João Bosco Rabello

14 de fevereiro de 2014 | 15h28

Nas relações entre governos e movimentos sociais o diálogo pressupõe negociações desenvolvidas para evitar ou resolver impasses. É uma forma civilizada de tentar avançar em temas sempre complexos e que envolvem direitos e deveres de parte a parte.

Por isso, mais das vezes, governos se recusam a receber representantes de movimentos quando recorrem à violência para se fazer ouvir. Não foi o que fez a presidente Dilma Rousseff, ontem, quando abriu as portas do palácio do Planalto a uma turba que havia tentado, momentos antes, invadi-lo.

Mesmo assim, concedeu menos do que seu antecessor, Lula, que recebeu um grupo que invadira a Câmara momentos antes, quebrando vidros, portas e depredando ambientes internos da instituição, além de ferirem funcionários e jornalistas.

Do ponto de vista institucional foi um passo em falso; do eleitoral, uma escolha que atende de um lado o público interno – PT -, mas, de outro, agride uma maioria silenciosa que faz diferença em eleições. Não terá sido, portanto, uma escolha sábia.

A se tirar pelas declarações do Secretário-Geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, está tudo certo. Os manifestantes puseram ao chão as grades que representam o último limite entre a praça dos três Poderes e o Palácio do Planalto, expondo-se à reação legal da Polícia Militar.

Dos 42 feridos, trinta são policiais e saíram atingidos certamente pela pressão para que exerçam a repressão garantindo os direitos dos manifestantes – embora esses já o tivessem ultrapassado. Em qualquer outro país, passado o limite do último reduto institucional, a porta do presidente da República, o risco é de morte.

Mas para o Secretário-Geral da Presidência, a Polícia Militar errou porque interpretou que pedaços de madeira que serviram de porrete eram artefatos pacíficos, destinados a montar cruzes. Não explicou como as imagens mostram claramente esses porretes sendo atirados contra policiais e usados para atacá-los.

Sabe-se que Carvalho tem a missão de administrar os conflitos entre governo e movimentos sociais, o que não deveria transformá-lo em advogado de ações erradas, pelos que que ultrapassam os limites da Lei e do bom senso.

Até porque, o governo Dilma é acusado pelos manifestantes de retardar a reforma agrária na forma de menos assentamentos, mas o que existe é mais critério na entrega de terras, que implica em que a distribuição seja acompanhada de assessoria técnica que dê condições de permanência do beneficiário na terra recebida.

Essa, aliás, foi uma decisão que o governo do PT demorou em tomar, fazendo só assentamentos mercado imobiliário, com os lotes recebidos sendo vendidos e o titular migrando para outras plagas, voltando ao estado anterior ao benefício. Ou seja, o sistema renova o sem teto, mesmo distribuindo terras. Como enxugar gelo.

Os movimentos sociais não devem ser criminalizados, como movimentos, mas não são inimputáveis. Se produzem as condições de ser criminalizado, seus métodos e ações devem ser revistos. Até porque, por mais legítimo, nenhum grupo terá licença para agredir e matar.

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