Dissidência demolidora

João Bosco Rabello

12 de janeiro de 2015 | 15h00

A importância da entrevista da senadora Martha Suplicy à jornalista Eliane Cantanhêde, de O Estado de S.Paulo está na chancela que representa para conteúdos que, até aqui, tinham na informalidade sua fragilidade.

Marta fala como testemunha de uma trajetória decadente de um partido que pretendeu liderar um ciclo virtuoso na política e cuja ascensão ao poder o contaminou de tal forma que o levou a superar a “velha política” em todas as suas mais condenáveis práticas.

No que interessa à história mais recente, o testemunho é avassalador. É um striptease do projeto de poder que esfacela o partido com danos colaterais graves ao país. Já em 2013 o fracasso da economia era evidente, era preciso trocar a equipe , o que só não foi feito, segundo a senadora, porque Dilma temia fortalecer Lula.

É ilustrativo desse diagnóstico o encontro descrito por Marta com representantes do capital brasileiro, trinta empresários mais expressivos do chamado “pibão”, em que Lula associou-se às críticas do mercado à presidente, colocando-se como o conselheiro que não era ouvido e concluindo que “os empresários estão se desgarrando”.

Nesse trecho, o depoimento de Marta deixa claro que o país foi submetido aos interesses de uma disputa partidária que só agravou a economia. Não é novidade, mas agora a informação é oficial. Não se duvida que a senadora seja depositária de informações até muito mais confidenciais do que as que se dispôs a revelar na entrevista.

O desafio do segundo mandato de Dilma é gigantesco, na expressão literal de Marta, e seu principal obstáculo, segundo ainda a senadora, é a própria presidente. O discurso de posse, na avaliação de Marta, não autoriza otimismo, porque não transmite a humildade que a presidente precisará para submeter seu governo à receita da nova equipe econômica.

A pretensão atribuída pela senadora ao ministro da Casa Civil, Aloísio Mercadante, de ser o candidato do PT em 2018, é reveladora da dimensão da rachadura interna no partido. Por essa informação, deduz-se que Mercadante decidiu enfrentar Lula, o que significa que o cacife do ex-presidente no partido já não sustenta uma aposta no seu patrimônio político e eleitoral.

Por mais equivocado que Mercadante possa estar, sua determinação, a se dar consistência à análise de Marta, não deixa de encontrar sintonia com os fatos recentes. Lula não sai da campanha do PT como responsável único pela vitória, suas estratégias não vingaram, como mostra a fragorosa derrota em São Paulo, e a formação do novo ministério não o contempla e nem à sua corrente no PT.

Mais que isso, um segundo mandato de Dilma com as dificuldades econômicas que o submetem a um receituário recessivo, não é indicador otimista para 2018. Se Dilma for abaixo do que se espera, sua condição de afilhada política do ex-presidente será realçada. O contrário já não se aplicará, pois a memória política costuma ser implacável com os erros e ingrata com os acertos.

Marta não poupa o presidente do partido, Rui Falcão, a quem acusa de formar um complô, com Mercadante e o marqueteiro João Santana, para despachar do Palácio do Planalto os perfis ligados ao ex-presidente Lula.

É de se ressaltar também o voto de Marta contra o diagnóstico do PT de engajamento da imprensa em uma suposta conspiração golpista, explícita na declaração de influência do noticiário sobre seu estado de espírito. “Cada vez que abro um jornal fico mais estarrecida com os desmandos do que no dia anterior”, diz na entrevista.

Ao contrário do partido, a senadora não culpa o veículo, mas seus correligionários. O noticiário a leva à reflexão crítica, em uma espécie de revisionismo, a se perguntar que partido é este em relação àquele que ajudei a fundar. Os jornais não produzem fatos, mas os informa.

De Lula, confirma-se por Marta, que era verdadeiro o plano de fazer de Dilma passaporte para o terceiro mandato, recusado não por virtude, mas por imposição constitucional. Um intervalo em que a continuidade estaria assegurada pelo controle remoto do poder, formato do qual se origina a expressão “poste” para definir a sucessora.

De novo, não é uma surpresa, mas agora versão que vira fato pelo testemunho de quem participou do processo, nele apostou, e depois se frustrou com o desenho da consolidação da criatura e revés do criador. Marta descreve encontros e diálogos com lula demonstrativos de que o ex-presidente não encontrou espaço para remover Dilma e reassumir o governo.

Chegaram a deixar de se falar, segundo a senadora, por um período, até Lula concluir que insistir na candidatura em 2014 seria correr o risco de ver o PT fora do poder. De fato, viesse à tona, por exemplo, essa entrevista da senadora antes das eleições, expondo a divisão do partido e a falta de compromisso com o país, o resultado poderia ter sido outro.

Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, base eleitoral de Marta Suplicy, essas revelações agravariam a derrota do PT no Estado, já estrondosa, conforme ela própria atesta ao atribuí-la menos ao adversário, o PSDB, e mais ao sentimento antipetista que ceifou oito cadeiras na Câmara federal, despachou para casa o veterano senador Eduardo Suplicy e relegou ao terceiro lugar o candidato do partido ao governo, Alexandre Padilha, abaixo do representante do símbolo capitalista máximo, a Fiesp.

Marta aumenta a temperatura ao defender a troca da atual diretoria da Petrobras, cuja permanência se transformou em cláusula pétrea para o ministério do segundo mandato, por orientação expressa da presidente Dilma Rousseff.

E mantém-se na linha de ataques ao governo Dilma, ao voltar as baterias para seu rival no ministério da Cultura, Juca Ferreira. A senadora vai além da crítica política para levantar suspeitas sobre as contas do desafeto quando exerceu pela primeira vez o cargo, completando a gestão inacabada de Gilberto Gil.

“Enviei para a Controladoria Geral da União, tudo sobre desmandos e irregularidades da gestão dele”, diz sobre Ferreira, deixando para a CGU o ônus de mais essa carga entre as tantas que fazem parte das investigações internas do governo.

Faz parte do jogo político minimizar entrevistas dissidentes, mas para um partido que já foi alvo das mesmas críticas por aliados de ontem, como o ex-governador Eduardo Campos,  e a ex-senadora Marina Silva, para ficar nos exemplos mais notórios, as revelações de Marta Suplicy não são minimizáveis.

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