A terceirização da culpa

João Bosco Rabello

30 Dezembro 2013 | 17h27

Em tempos de campanha nenhuma ação ou declaração política deve merecer leitura que as desvinculem do interesse eleitoral. Ele prevalece acima de qualquer outro aspecto, em desfavor do interesse público. Como disse a presidente Dilma Rousseff, na sua única frase politicamente sincera até aqui, em eleição “faz-se o diabo”.

Na alegoria cristã, uma das armas mais poderosas do referido é a mentira, em todas as suas formas – da dissimulação à hipocrisia, da meia-verdade à terceirização de culpas, das intenções ocultas nos gestos de aparente boa fé. O receituário de político em eleição, portanto, nos ensina a Presidente, fica como o diabo gosta.

E como comparar  malfeitos virou o escapismo preferido do PT, vale dizer que a máxima da presidente se aplica a todos – e não só ao seu partido. A diferença é que, com a coroa e a caneta, a licença para ultrapassar limites é avassaladora e parece infinita.

O papel aceita tudo, diz outra máxima, aplicada sem qualquer constrangimento pelo governo, na forma da chamada contabilidade criativa. Se os números não confirmam as teses, mudem-se os números, ensina o secretário do Tesouro, Arno Augustin.

Mas, como a economia, em algum momento, impõe sua realidade, não bastam maquiagens. É preciso lançar mão daquele receituário do vale-tudo quando a perspectiva mais próxima se avizinha danosa, caso dos serviços públicos às vésperas de uma Copa do Mundo.

A insuficiência no atendimento à população, clara há mais de uma década, se concentra num evento de dimensão internacional e produz uma síntese de potencial prejuízo eleitoral, para a qual o governo já se previne.

É nesse contexto, de aeroportos saturados, transporte público inviabilizado, insegurança exposta, atendimento médico em xeque, que deve ser lida a acusação da presidente a setores (que não identifica) disseminadores de um pessimismo injustificável diante dos resultados do país.

Não é filme novo. Seus antecessores, todos, de uma ou outra maneira, mais ou menos contundentes, lançaram mão do mesmo recurso, atenuando as circunstâncias que viveram, tentando animar o distinto público – de resto, papel inerente aos governos.

A diferença agora é que Dilma não restringe seu discurso a um apelo contra o pessimismo, majoritariamente presente entre as diversas correntes de analistas econômicos. Ela formula uma acusação, com sujeito oculto, de terrorismo psicológico para desestimular potenciais investidores.

Terceiriza-se o culpado pela escassez de investimentos. Os dois agentes desse processo – governo e investidores – são agora vítimas de uma conspiração que se resume em avaliações forjadas, desvinculadas da realidade do país.

Trocando em miúdos: não há investimentos porque empresários inidôneos e mídia – sujeitos ocultos da acusação da presidente – conspiram para que o país dê errado. Visto assim, o investidor está equivocado: o país dispõe de ótimos serviços públicos e a economia não é ideologizada. Respira-se  liberdade de mercado, não há qualquer sinal de intervencionismo e o governo está empenhado na aplicação de uma política fiscal séria.

Passada a eleição, nem o mais avassalador otimismo será capaz  de evitar a realidade: a conta virá em 2015.

Por ora, é campanha, mas convém lembrar que, nela, todos os atores se sentem com licença para adotar o receituário do mais velho de todos.