Dilma empurra PMDB para o coro de “Volta, Lula”

João Bosco Rabello

26 de fevereiro de 2014 | 17h30

A resposta do governo ao PMDB destoa pela forma, mais do que pelo conteúdo – este também impróprio para uma parte dos negociadores que pretende efetivamente chegar a um acordo político.

Como os atores desse processo não desconhecem o mais elementar da arte da negociação política, deve se deduzir que a presidente Dilma Rousseff, através de seu porta-voz, o ministro Aloísio Mercadante, decidiu mesmo hostilizar o partido.

Entre a negativa e a rispidez está o espaço de negociação que esta última retira do processo. A resposta de Mercadante, sugerindo que os peemedebistas se contentem com uma foto ao lado da presidente, para além de superestimar seu índice de aprovação, tem embutida a arrogância que nega o espírito conciliador.

De outro lado, o PMDB reage com o bloco de retaliação ao governo aderindo ao “Volta, Lula”, encorpando o coro contra a reeleição de Dilma.

Tem-se aqui algo em que refletir: o ministro da Casa Civil, representante do PT, acirra os ânimos já exaltados do partido e obtém como retorno a adesão do rival ao movimento que pretende tirar de cena eleitoral a presidente da República.

Das duas formas, a presidente sai derrotada. Não resgata o apoio político do PMDB e vê estendida ao resto da base aliada o movimento pela sua saída. Já bombardeada pelo fogo amigo, agora reduz o apoio da base ao seu governo.

O cenário contraria a lógica política clássica. Quando em desvantagem de um lado, busca-se apoio no outro, mas Dilma escorraça o PMDB quando lhe falta apoio em seu próprio partido. Ao invés de fortalecer-se para reequilibrar as relações com o PT, age aumentando a oposição a si própria.

Produz assim o mais difícil – unir PT e PMDB, em ano eleitoral, no único ponto em que isso seria possível: a aliança com Lula, ainda que esteja superavaliado o papel do ex-presidente como salvador da crise política e econômica.

O rompimento formal do PMDB com o governo, hipótese remota há alguns meses, hoje está a um passo de ocorrer, pelo menos com o voto de parcela expressiva da legenda na convenção prevista para março.

Nada mais propício para viabilizar a candidatura de Lula sem que a troca possa ser atribuída ao fracasso econômico da gestão de sua sucessora.

A crise fomentada pelo conflito com a base daria roupagem política à troca, poupando Lula da acusação de golpe ou de ter que explicar porque sua afilhada não deu certo. Passa a ser uma operação baseada no risco da derrota eleitoral.

A adesão do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), ao queremismo petista tem mais sentido objetivo do que a ameaça contida na decisão de estimular a investigação contra a Petrobrás.

E põe em xeque a condução das negociações com o PMDB que azedaram mais depois de assumida pelo ministro da Casa Civil – que chegou ao cargo saudado como um perfil político que melhoraria as relações do governo com sua base.

Não há, no entanto, improviso que explique o discurso de Mercadante aos peemedebistas, senão como uma peça deliberada de ruptura. “Se virem”, é a síntese mais polida para a fala do ministro ao partido.

Como o efeito era previsível,  o resultado surge como objetivo previamente traçado.

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