Dilma e oO desafio da mediação

João Bosco Rabello

08 de janeiro de 2015 | 14h30

A opção por mais autonomia em relação a PMDB e PT, que orientaram a composição do novo ministério, desafiará a capacidade mediadora da presidente Dilma Rousseff, que começa a ser testada já nos primeiros dias do segundo mandato.

A insatisfação dos principais partidos de sua base decorrem da redistribuição de forças representadas no primeiro escalão, com perdas de espaços dessas legendas para outos aliados, não só reduzindo o número de pastas, ou frustrando aspirações de ampliação, mas também na importância das pastas ocupadas por PMDB e PT.

O protesto do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que ele desmente burocraticamente, revela esse último aspecto da questão. Renan se deu conta de que das seis pastas do PMDB, três são secretarias, e que o processo de escolha da presidente foi pessoal e não teve na cúpula sua fonte.

É o caso da secretaria da Pesca, negociada diretamente com o senador Jáder Barbalho, em favor de seu filho, Helder. Ministérios tradicionais, como Agricultura e Minas e Energia, ocupados pela senadora Kátia Abreu e pelo senador Eduardo Braga, respectivamente, são escolhas pessoais de Dilma.

O do Turismo apenas, ocupado por Vinicius Lages, atende a Renan, mesmo assim à espera de que o ex-presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves seja isentado na investigação da Petrobras, para ocupar a Pasta.

O PT, por sua vez, vive o desconforto do alijamento de sua corrente majoritária dos espaços nobres do poder, o chamado “núcleo duro”, em volta da presidente da República. Gilberto Carvalho deu lugar ao gaúcho Miguel Rosseto na Secretaria-Geral da Presidência, e Pepe Vargas assumiu a articulação política, despachando do Palácio Ricardo Berzoini.

Com Aloísio Mercadante mantido na Casa Civil, fecha-se o círculo palaciano em torno de Dilma, que passará a interagir com uma maioria partidária mal humorada. O outro ponto de apoio da presidente também não representa a ala majoritária do partido: está no Ministério da Defesa, de onde funcionará também como consultor político de Dilma.

Não por acaso, Jacques Wagner, aparentemente preterido para pastas de maior visibilidade e influência política, estava na primeira reunião de Dilma com seu núcleo político no Palácio da Alvorada, na noite de terça-feira, quando retornou das férias na Bahia.

O problema é que Mercadante e Pepe Vargas não têm trânsito fluente no partido, dificuldade extensiva a toda a base de sustentação. O ministro da Casa Civil, tempos atrás, foi comparado a uma enciclopédia, que tem conteúdos, mas não tem poder formulador.

A trajetória de Mercadante, com passagens sempre breves em áreas estratégicas, como na Educação e Ciência e Tecnologia, além da liderança do governo no Senado, sugere a construção de um currículo para galgar patamares cada vez mais altos, sem que tenha deixado em nenhuma dessas funções uma realização marcante.

 Essa característica firma o sentimento em seus pares de que está permanentemente em voo solo, capitalizando para sua ascensão política o poder dos cargos que ocupa. O partido viria em segundo plano, em alguma avaliações correntes na base aliada.

O gaúcho Pepe Vargas não é visto como um detentor das habilidades e do trânsito necessário à função que exercerá de articulador político. Especialmente em contexto de reação do partido ao novo formato ministerial que revela a intenção de maior autonomia por parte da presidente.Com o PMDB também contrariado, seu desempenho terá de surpreender muito para desautorizar a previsão mediana que dele se faz.

Esse cenário político se agrava quando domado ao contexto econômico, que faz da presidente da República refém de uma agenda recessiva prevista para durar, senão todo o segundo mandato, pelo menos os três primeiros anos.

A circunstância faz do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o principal ator do governo, que chamará a atenção tanto pela capacidade técnica de cumprir a missão de resgate da economia, quanto pela visibilidade, que concorrerá com a da própria Dilma.

Se considerado o cenário econômico, e a indispensável correção de rumos, pode-se dizer, grosso modo, que Levy presidirá as ações de governo durante boa parte do segundo mandato, impondo à presidente o aval à sua gestão que estará sempre sob o “fogo amigo” do PT e, nesse caso, também do PMDB.

O eventual fracasso da presidente no papel de mediadora dos interesses antagônicos representados no ministério novo, poderá levá-la a se socorrer, em algum momento, do ex-presidente Lula, o que significaria um recuo no propósito de independência política que parece buscar no segundo mandato.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.