Desgaste progressivo

João Bosco Rabello

11 de abril de 2014 | 15h03

A CPI da Petrobrás, mesmo se não instalada, ou instalada na forma ampliada com que o PT tenta inviabilizá-la, é fator de desgaste para o governo pelos efeitos colaterais que sua discussão produz.

Além do ônus de rejeitá-la, numa guerra diária que expõe o temor pelo que possa revelar, o governo é depositário dos efeitos  de denúncias paralelas que aumentam a demanda negativa e o mantém refém de uma crise política com potencial para chegar às vésperas da eleição.

Mesmo a entrada em cena do ex-presidente Lula, habitualmente eficaz para reduzir os desgastes do PT, é no sentido de melhorar a defesa do governo. Não pôs, até aqui, o partido no ataque, por absoluta falta de retaguarda.

Tanto assim, que na entrevista organizada para atender ao público interno, Lula reforçou a ideia de que poderá assumir a candidatura oficial, em substituição à presidente, apesar de iniciar sua fala dando garantia em sentido contrário.

É que para iniciar sua defesa do governo, o ex-presidente precisou admitir os erros na economia e alinhar-se entre os que cobram a renúncia do deputado André Vargas (PT-PR) ao mandato, o que só foi obtido parcialmente com a renúncia do parlamentar ao cargo de vice-presidente da Câmara.

Lida com atenção, a transcrição da entrevista do ex-presidente tem como linha narrativa a mesma crítica feita à sua afilhada pelo mercado e especialistas de economia e política. Essa característica da entrevista impôs-se ao desmentido quanto à possibilidade de vir a candidatar-se ainda em 2014.

A percepção de que Lula desmente essa possibilidade de maneira protocolar deverá se aprofundar com a divulgação da próxima pesquisa que o PT calcula – ou sabe de antemão pelas suas próprias consultas – registrará nova queda da presidente até para abaixo de 30%.

A crítica de Lula ao governo tem uma essência de cobrança pelo que Dilma não fez para contornar os problemas na economia em tempo hábil para reverter o pessimismo geral e reconquistar a confiança dos investidores.

Sabe-se que o ex-presidente chegou a aconselhar Dilma a mudar o comando da economia, no que ele tem de simbólico, já que a condução é dela própria, orientada por suas convicções pessoais que a puseram na contramão do setor produtivo.

Lula gostaria de, a tempo, ter trocado o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pelo ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o que não logrou obter certamente porque o êxito da operação significaria tirar da presidente a autonomia sobre a condução econômica.

Dilma não se curvaria a Meirelles com quem divergiu durante todo o governo Lula chegando a classificar a linha econômica operada por ele e pelo então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, de “rudimentar”.

Dona do jogo, deu curso às suas convicções contra o que considerava rudimentar e chegou ao ano da campanha pela reeleição, com inflação crescente, sem investidores, rejeitada no seu partido e com a base de sustentação parlamentar hostil e dissidente.

As próximas semanas não autorizam qualquer otimismo ao governo. O caso do deputado André Vargas caminha para a sua cassação – mais uma no PT por corrupção -, os depoimentos programados para atores envolvidos nas denúncias contra a Petrobrás substituem os que ocorreriam numa CPI e a luta por espaço na base sugere mais casos suspeitos a sangrar os quadros oficiais.

Ainda antes do final desta semana, o governo aguarda novas denúncias contra a Petrobrás, cujo silêncio desde que se formou a perspectiva de sua presidente Graça Foster depor na CPI, representou a omissão da empresa em sua própria defesa.

Graça viria depor a convite, não veio mais. O pretexto foi o de que seria ouvida na CPI, então bastava esse desgaste.
Enquanto isso, a defesa da empresa se limita a farta publicidade nos principais veículos de mídia do país, que reproduz números de aparente êxito, mas não esclarece nada em relação às denúncias investigadas pela Polícia Federal.

O fato de as pesquisas não registrarem a transferência da insatisfação popular para os dois outros candidatos da oposição, não serve como conforto. É apenas questão de tempo para que isso ocorra, admitida a tese – muito razoável -, de que antes de um fenômeno a ser estudado ou de incompetência da oposição, isso ocorre pela pouca visibilidade dos candidatos.

Supõe-se que o início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão contorne essa barreira ao crescimento desses candidatos, como já indica o crescimento, mesmo que pequeno, do senador Aécio Neves (PSDB-MG), pela exposição que lhe deu a tentativa de instalação da CPI – um presente eleitoral da própria presidente Dilma ao acusar a diretoria da Petrobrás de tê-la induzida ao uma operação suspeita, que a empresa ainda sustenta como um “bom negócio”.