Demitir Mantega é passar recibo à oposição

João Bosco Rabello

19 Dezembro 2013 | 20h25

Em política, muitas vezes as coisas funcionam com a lógica invertida. Como no futebol, quando a declaração de prestígio de um técnico corresponde, quase sempre, à sua sentença de morte. Técnico que continua “prestigiado “após insucessos seguidos, sabe-se, está com os dias contados.

Com ministros não é na mesma proporção, mas negativas também podem ser lidas como confirmações. Ainda que a longo prazo.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, vem colecionando insucessos, a maior parte devida menos a circunstâncias externas e mais a erros e teimosias, boa parte dessas últimas exercidas em legítima defesa, ou seja, para não contrariar as clássicas “ordens superiores”.

Se algo pode ser dito em favor do ministro, é a óbvia subordinação a uma linha de pensamento que emana da presidente Dilma Rousseff.

É nessa realidade, visível a todos, que está a garantia de Mantega de permanência no cargo, reiterada ontem pela presidente Dilma em café com jornalistas.

Não se trata de diminuir o papel do ministro da Fazenda, mas de ressaltar o limite de sua autonomia para as grandes decisões, no mínimo compartilhadas com a presidente – no mais das vezes, ditadas por ela.

No sistema de poder formatado por Dilma, ela é o centro das decisões – e, ao que se diz -, não só das grandes, mas até mesmo das mais corriqueiras. Nesse contexto, ela é ministra de muitas pastas – não das 40, mas, pelo menos, de quatro ou cinco, entre elkas – e, principalmente, – a Fazenda. Nem mesmo o Banco Central lhe escapa.

Nesse contexto, demitir o ministro da Fazenda pelos maus resultados da economia, pela desconfiança do mercado, pelo intervencionismo, pela ingerência nas decisões monetárias, ou pelo viés ideológico que preside a política de parcerias privadas, equivaleria a uma renúncia presidencial.

As manifestações sucessivas da presidente nessas áreas deixam clara a fonte de poder que determina os passos do governo na área econômica.

É até certo ponto confortável exercer o comando dessa forma, colhendo os bônus quando for o caso, e terceirizando os ônus, ocorrência mais frequente. Como tudo tem um limite, em algum momento a coleção de insucessos determinará a mudança de nome, o que ocorrerá quando politicamente for favorável, em nome de diversas conveniências, todas elas atribuídas ao interesse público.

Se a economia vai mal, administra-se a permanência do ministro. Se continua mal, continua-se negando a demissão em favor da estabilidade do mercado, mas já se prepara uma saída conveniente. Se a época é eleitoral, demitir significa passar recibo de má gestão e colocá-lo na mão do adversário para sua exibição no palanque.

Por isso, adia-se novamente a saída, o que no caso de Mantega se traduz por ficar até o fim do primeiro mandato de Dilma. Uma eventual reeleição será a sua demissão.

 O ministro da Fazenda se encaixa em todos esses cenários. Ficará no cargo, sim, como assegurou a presidente Dilma. Pelas conveniências eleitorais e não por mérito, especialmente depois da sentença autocrítica de que o país vive uma economia de “pernas mancas”. Em circunstâncias normais estaria explicando essa frase, ou mesmo desmentindo o gravador, já fora do cargo.

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