Decisão de vice pacifica o DEM, mas campanha ainda procura um rumo

João Bosco Rabello

30 de junho de 2010 | 23h59

Os grandes mestres da política ensinavam que não se exerce o ofício com o fígado – mas com inteligência e estratégia.

Tudo o que faltou ao PSDB nesse contexto de escolha do vice de José Serra. A começar pela tentativa dos tucanos de armar um casamento de conveniência, no qual a noiva não aparece em público, não priva da intimidade, mas entra com o patrimônio – no caso, eleitoral.

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Jovem, Índio da Costa não teve tempo de construir uma biografia política. Foto: Dida Sampaio/AE

A definição que poderia ter saído antes, de forma discutida e estratégica, surge tardiamente, com a marca do improviso e com um só efeito palpável, pelo menos por ora, que é o de sacramentar a aliança com o DEM.

Não saiu antes por duas razões: a divisão interna do DEM, que jamais propusera um candidato a vice, e a rejeição do PSDB ao parceiro.

Uma aversão quase física separou José Serra – para quem o vocábulo “direita” é o mais feio do dicionário político – da cúpula atual do DEM, com a qual não conseguiu fazer uma só reunião desde que lançou a candidatura. A ponto de permitir que surgisse um candidato no vácuo de poder que se instalou na campanha.

A crise aberta com a indicação do senador Álvaro Dias (PR) despertou no PSDB o instinto de sobrevivência que superou a notória submissão do partido, e de seu candidato, ao patrulhamento ideológico que o PT – que desfila escancaradamente com Sarney, Renan, Collor e outros -, cobra aos demais, porém não aplica a si próprio.

Jovem, Índio da Costa não teve tempo de construir uma biografia política. Tem em seu currículo o mérito recente da relatoria vitoriosa do projeto da ficha-limpa, que já diz algo positivo sobre ele. Mas é duvidosa a afirmação de que possa agregar votos a Serra fora do Rio, sua base eleitoral.

Muita coisa precisa ser arrumada ainda na campanha do PSDB, mas o fim da novela do vice, deixou claro que o candidato precisa assumir o comando da sua campanha e o passado positivo de seu partido, que construiu a estabilidade da economia.

Já há quem esteja convencido de que Lula disse o que não queria, ao anunciar uma campanha comparativa de seu governo com o do PSDB, que o antecedeu. Infundiu no PSDB o temor de que os números positivos da gestão tucana fossem esquecidos num cenário de economia pujante e de poder de consumo ampliado.

Ao aceitar a provocação, o PSDB excluiu de sua campanha o que tem de melhor – a paternidade dos fundamentos econômicos mantidos pelo governo que o sucedeu e, por extensão, seu quadro mais expressivo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Exclusão pouco inteligente, porque omiti-lo da campanha, não apagará seu vínculo com o partido, mas poupa Lula de um debatedor que até aqui mostrou ser o único que o incomoda.

Renegar feitos, lideranças e parceiros, ou admiti-los constrangidamente, são escolhas que podem fazer de Serra “o melhor presidente que o Brasil jamais teve”, na definição da revista The Economist.

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