Decisão de Rosa Weber acua o governo

João Bosco Rabello

24 de abril de 2014 | 18h00

A decisão da ministra Rosa Weber, pela CPI exclusiva da Petrobrás, pode não representar, por si só, garantia de sua instalação automática, já que o governo é ostensivo na estratégia protelatória. Mas é um duro revés para o Palácio do Planalto com efeito político imediato.

A decisão de Rosa Weber ocorre em meio a uma sucessão de escândalos que parecem alcançar uma periodicidade diária. Nos jornais de hoje, além da decisão da ministra, mais fatos conspiram a favor da CPI.

É gravíssima a manchete do jornal o Globo, com a revelação de que auditoria da Petrobrás encontrou saque de U$ 10 milhões sem registro e sem autorização foral. E ainda sem identificação do sacador.

O episódio, apenas um que vaza da auditoria interna, mostra a que ponto de descontrole chegou o esquema montado provavelmente para financiamento político, suspeita apoiada nos altos valores movimentados por um comando paralelo na empresa.

No mesmo dia, o Ministério Público  denunciou o ex-diretor Paulo Roberto Costa, e a Justiça aceitou denúncia contra o doleiro Alberto Yousseff, que formavam uma dupla para desviar e lavar dinheiro.

Na Câmara, o PT mantém uma pressão patética pela renúncia do ex-vice-presidente da Casa, André Vargas (PR), flagrado exatamente com Yousseff, em operação irregular no Ministério da Saúde em favor de uma empresa de fachada.

Elos de uma corrente vão se fechando justificando a CPI, agora legitimada por decisão judicial, buscada pelos próprios congressistas, o que torna constrangedor o argumento do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) de que o Supremo Tribunal Federal feriu a independência entre os poderes.

A decisão da ministra Rosa permite a instalação imediata da CPI, pois o recurso ao plenário do STF, como anuncia o governo, não gera o efeito suspensivo. Porém, a base aliada pode buscar recursos protelatórios, a começar pela demora na indicação dos integrantes do governo na CPI.

Mas o que vem á tona em relação à Petrobrás, a conta-gotas já é mais do que suficiente para atestar a legitimidade da comissão, pois são fatos que teimam em desmantelar as trincheiras em que o governo se protege do tiroteio.

Já está claro que não são os mensageiros que informam os desmandos na empresa os responsáveis pelos danos que a rebaixaram à 120ª posição no ranking mundial. Mas personagens que começam a ser identificados – alguns já indiciados como réus e que tinham amplo trânsito no governo do PT.

Igualmente perde a valia a acusação de que a CPI é eleitoreira. Se produz danos eleitorais, principalmente para a reeleição da presidente Dilma Rousseff, é efeito colateral que não pode se sobrepor ao interesse público, a essa altura já bastante claro pela CPI.

O governo construiu a teia de problemas em que está enredado e, dessa vez, não há teoria conspiratória sustentável para evitar as investigações. Muito embora, agora o presidente do Senado recorra ao método do PT de condenar o Judiciário pelo que deu causa.