De mal a pior

João Bosco Rabello

10 de março de 2015 | 15h19

Um erro de forma e conteúdo, a fala da presidente da República em rede nacional de televisão evidencia, mais uma vez, a precariedade de sua articulação política, que já produz , aqui e ali, sugestões de uma reforma ministerial.

O Dia da Mulher, usado como pretexto para a fala presidencial, aguçou a percepção de que o ajuste fiscal é constrangedor para a presidente. O tema, por si só, não justificaria a ida à televisão, por isso entra de carona na mensagem comemorativa do gênero feminino.

Aí o erro de forma. O de conteúdo, é o de sempre. Dilma fala da importância da aprovação das medidas e pede paciência para enfrentar não o resultado de uma gestão econômica equivocada, mas as consequências de uma crise internacional somada à seca que assola regiões do país.

Terceiriza as responsabilidades e, uma vez feita essa opção, passa aos eufemismos como “correção e ajuste” para atenuar a realidade, tal como chama a corrupção sistêmica em seu governo como “malfeitos”.

É a continuidade do que fez na campanha presidencial, agora já admitindo a crise econômica, porque não é mais possível desconhecê-la. Mas nada que se vincule a ela ou à sua gestão no primeiro mandato. Coisa de fora.

Porém, o mais sintomático da desorientação política está na abordagem do tema do impeachment, que não está posto senão como tese em redes sociais e oficialmente é rejeitado pela oposição. Quase ao mesmo tempo em que as lideranças do PSDB recusavam apoio ao impeachment, Dilma e o PT consideravam movimentos anônimos nesse sentido como a tentativa de um “terceiro turno”.

Com as declarações de ontem,  a presidente trouxe a crise de novo para dentro do Palácio do Planalto, quando ela havia se deslocado para o Congresso Nacional, dias antes, pelos ventos soprados do Ministério Público, ao apresentar ao Supremo Tribunal Federal a relação de parlamentares que responderão a inquéritos.

O ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, antecedeu a presidente na toada da conspiração e do golpismo, o que indica uma ação coordenada do Planalto, em que a presidente entra para consolidar uma linha defensiva que já não produz qualquer efeito junto à população.

São agora maiores os problemas da presidente e de seu governo. Interpretações são livres, mas na política é preciso que elas coincidam com o pensamento da maioria para que surtam efeito. O panelaço se deu em janelas espalhadas em cidades pelo País afora, em manifestação dentro do espaço privado das famílias, o que torna até ridícula a tese de financiamento levantada pelo PT.

O PT desconsidera propositadamente que inaugurou a modalidade de jornalismo a favor, com financiamentos a blogueiros e ativistas de redes sociais, com recursos da verba de publicidade oficial, em relação e valores que jamais admitiu divulgar, mesmo com requerimentos nesse sentido feitos por parlamentares como o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP).

Com esse comportamento constrói, há tempos, uma rede de contradições em que hoje se enreda sem identificar mais começo, meio e fim. No auge da desconfiança em sua própria base, no mercado e junto à população, a presidente ainda não se convenceu de que precisará de muito mais do que o trio de ministros que respondem pela sua articulação política. Para enfrentar a crise que corrói seu governo progressivamente.

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