De ênfases e ressalvas, crescimento e inflação

João Bosco Rabello

28 de março de 2013 | 12h16

O recurso à ênfase serve para sublinhar aquilo que se considera o principal objetivo de uma fala, programa ou discurso.  A ressalva faz a exceção a  uma parte do todo enunciado, afim de preservá-lo do conjunto da regra.   Para que ambos sejam interpretados com o peso que se quer dar a cada um, é preciso hierarquizá-los , ou seja, a ênfase vem primeiro por ser o objetivo central do orador.

Esse é um conceito básico da política e do jornalismo, extensivo à publicidade, ao marketing e a muitas outras atividades que têm na  comunicação eficiente com o público-alvo de sua mensagem, o desafio permanente a superar. Não é diferente com a economia, ciência que não combina com a emoção.

A reflexão vem a propósito da irritação da presidente Dilma Rousseff com o que chamou de “manipulação” de sua fala sobre a economia brasileira, à saída de um evento oficial na África do Sul ontem. Debitou ao mercado o efeito negativo dos sinais trocados de seu discurso, em que a inflação foi a ressalva, quando deveria ser a ênfase.

Esta somente apareceu na entrevista convocada às pressas, e, ainda assim,  depois da ressalva de que não errara no pronunciamento, mas que fora vítima da má-fé do público-alvo de sua mensagem – de resto, ansioso por uma palavra sobre o controle da inflação. Mas que ouviu uma veemente defesa de sua política de crescimento.

Possivelmente traída pelo inconsciente, a presidente priorizou a resposta aos críticos de sua administração econômica – políticos, jornalistas, economistas e acadêmicos -, que percebem a influência do processo eleitoral antecipado na determinação de seu governo de enfrentar com o rigor desejável – e prudente – a ameaça inflacionária.

Chegou a dizer, ainda na primeira vez, que a inflação é combate diuturno do governo, mas era uma ressalva empalidecida pela primeira parte do discurso. O mercado – que é mesmo manipulador por essência -, leu o que acredita: combate à inflação para valer, só depois de garantida a reeleição, critério que terá produzido então uma conta negativa, a exemplo do que seu antecessor fez para elegê-la.

Foi a presidente que construiu a hierarquia de sua fala: primeiro, a defesa de sua gestão econômica, exercida em favor do crescimento, mas  que produziu o “pibinho”. Depois – e, portanto, secundário -, o compromisso de combate à inflação, administrada à base de paliativos. Mais tarde – e para o mercado, bem tarde -, a correção com uma frase que soou mais filosófica do que real: o combate à inflação “é um valor em si”.

O componente emocional esteve presente todo o tempo nas falas da presidente ontem, o que acabou traindo sua preocupação com as críticas dos adversários de sua política econômica. Valorizou o que lhe era mais caro: mostrar que está certa. Aí, seu ponto vulnerável.

Pilatos ao lavar as mãos (sem qualquer comparação histórica), entregando à turba a decisão sobre Jesus, traiu seu ponto fraco, a incapacidade de decidir. A referência bíblica, como valor psicanalítico, não é uma homenagem ao pastor Marco Feliciano, mas torna-se válida na medida em que a presidente foi quem admitiu “fazer o diabo” em campanha eleitoral.

A campanha está em curso e,  invocado,  o personagem das trevas fez lembrar que mora nos detalhes.