Crítica à Bolívia é parte da estratégia de Serra contra a política externa do governo Lula

João Bosco Rabello

29 Maio 2010 | 23h00

Aparentemente desconectada da campanha eleitoral, pela natureza do tema (drogas), a crítica do candidato José Serra (PSDB) ao governo boliviano obedece a uma estratégia de contestação da política externa brasileira, questionando parcerias internacionais de pouca ou nenhuma relação custo/benefício para o Brasil.

A chave para cumprir essa estratégia sem pôr em risco o princípio de respeito à soberania das nações tem sido a abordagem crítica à relativização do conceito democrático e dos direitos humanos pelos países aos quais o governo Lula dispensa tratamento privilegiado.

Nesse contexto, a Bolívia foi precedida por Venezuela, Cuba e Irã e, no plano estritamente comercial, pela Argentina e China. Em pílulas, Serra vai expondo seu pensamento revisionista para a chancelaria brasileira.

Traz para o debate eleitoral a possibilidade de explorar as contradições do  governo Lula, de discurso e prática democráticos no plano interno, mas indiferente aos desmandos em Cuba e Venezuela, e tolerante com movimentos como as Farcs, à qual ainda reconhece status político, apesar de sua integração ao narcotráfico.

O Irã entra na lista como o risco verdadeiro na deterioração das relações com os Estados Unidos, pelo papel de inocente útil atribuído ao Brasil ao servir a uma suposta – mas provável – estratégia daquele país em ganhar tempo na elaboração de programa nuclear para fins não pacíficos.

A politização do Mercosul e o reconhecimento da China como economia de mercado deram visibilidade ao conflito comercial e produziram no âmbito da campanha do PSDB a  proposta de introduzir no currículo do Itamarati a especialização em comércio externo, cuja gestão no governo é fragmentada .

Menos de 24 horas após a denúncia contra o governo boliviano, de cumplicidade com o narcotráfico, a Polícia Federal anunciou a apreensão, no Mato Grosso,  de mais de meia tonelada de  cocaína procedente daquele país.

Foi a segunda maior apreensão nos últimos anos de droga procedente da Bolívia. Dados da ONU revelam que morrem no Brasil, por ano, pela ação do tráfico, cerca de 50 mil pessoas – mais do que as mortes produzidas durante a ditadura militar.

E perto de 100% da droga que alimenta esse comércio, operado em meio a uma guerrilha urbana, têm origem no trânsito livre do tráfico boliviano na fronteira brasileira.