Crises produzem reforma gradual do ministério Dilma

João Bosco Rabello

05 de julho de 2011 | 10h34

As demissões na cúpula do ministério dos Transportes devem alcançar o ministro Alfredo Nascimento, ainda que se cumpra o prazo político necessário à sua remoção.

Ao conceder ao titular da Pasta a chance de explicar as irregularidades ocorridas bem embaixo de seu nariz, a presidente Dilma Rousseff deve ter poucas expectativas de que, ao final, o ministro convença.

Dilma parece cumprir um ritual que contempla o ministro com o benefício da dúvida, porque precisa administrar politicamente sua demissão, neutralizando as reações do PR, partido de Nascimento, e evitando que sua intervenção na Pasta tenha como efeito colateral uma crise política.

Um sinal claro de que o ministro não está seguro é a determinação presidencial à Corregedoria Geral da União para promover uma devassa nos órgãos mais importantes do ministério – o Departamento Nacional de Infraestrutura (Dnit) e a Valec, empresa responsável pela administração da malha ferroviária.

Esta última com um desvio já apurado de R$ 70 milhões nas obras da ferrovia Norte-Sul, agravados pela influência ostensiva do deputado Waldemar Costa Neto (PR-SP) no setor – ele, réu do mensalão que renun ciou ao mandato para escapar da cassação, depois de desmoralizado pelo então deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson (RJ).

Se Nascimento fosse, de fato, o interventor em sua própria Pasta – o que seria surrealismo puro -, caberia a ele acionar a CGU para ampará-lo nas apurações que, sérias, alcançarão outras legendas.

O comportamento da presidente sugere que ela pretende fazer do limão uma limonada, aproveitando a oportunidade para dar mais um passo na mudança do mapa ministerial, alterado por impulso das crises.

Se não pôde evitar nomeações mesmo daqueles que apresentavam problemas antes da posse, como Pedro Novaes, do Turismo, conhecido por cobrar à Câmara ressarcimento de despesas em um motel, Dilma demonstra que não perderá oportunidades de promover uma reforma ministerial gradual, justificada pelas faltas dos próprios ocupantes dos cargos.

Palocci já foi, Luis Sérgio também, agora pode ter chegado a vez de Nascimento. Dilma não gostava, pelo menos, da turma que o cercava, a começar por Waldemar Costa Neto.

Com perdão do trocadilho, a demissão de Nascimento pode ser um parto político, mas uma vez em gestação dificilmente será abortada.

Até porque a razão de não ter ocorrido prende-se à conveniência de manter no Senado o suplente, João Pedro, responsável pela nomeação e pela permanência de Nascimento no ministério dos Transportes.

João Pedro é amigo pessoal do presidente Lula, que impôs a nomeação de Nascimento para efetivá-lo no Senado, numa costura que a corrupção na Pasta ameaça desfazer.

Vale lembrar que o outro candidato ao cargo, à época da formação do ministério, foi o senador Eduardo Braga (PMDB-AM), a quem foi oferecido – e recusado – o da Previdência, como forma de preservar o interesse do ex-presidente Lula.

E tudo se deu assim, como num clube de amigos.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.