Crise força diálogo de Dilma com o Congresso

João Bosco Rabello

26 Junho 2013 | 17h00

Em situações de crise governos costumam recorrer ao Congresso Nacional numa espécie de trégua nas relações habitualmente marcadas pelas divergências, mesmo com suas bases de sustentação. Geralmente obtêm o apoio para a travessia até que se restabeleça a normalidade.

São exemplos mais recentes na história os governos Sarney e Itamar Franco, que assim agiram em momentos de fragilidade institucional  – o primeiro, saído de uma ruptura representada pelo fim do regime militar; o segundo, na esteira do impeachment de Fernando Collor.

Este, por sua vez, quando tentou estabelecer um pacto com o Congresso, as pontes já não existiam mais, depois de dois anos em que tentou sustentar-se expondo o Legislativo como fator da paralisia de seu governo.

Mesmo aconselhado desde os primeiros momentos de seu governo a construir uma relação com os congressistas, recusou-se a tal, montado na popularidade refletida pela recente eleição, comum a todos os presidentes nos primeiros cem dias. Fez esse mea culpa uma vez deposto, mas era, obviamente, tarde demais.

Há uma similaridade de comportamento indiscutível entre a presidente Dilma Rousseff e o seu hoje aliado, o ex-presidente alagoano, ainda que não seja razoável prever sua extensão aos desfechos. Collor caiu pela corrupção que o envolveu pessoalmente. Dilma corre o risco de uma erosão política gradativa e prematura no seu primeiro mandato.

Parece estar sendo difícil para a presidente a autocrítica quanto à responsabilidade pessoal pelo distanciamento com o Congresso. Na sua crise, as pontes estavam abertas, mas ela manteve a opção pela exposição do Legislativo, vilão como o governo no canto das ruas. Estendeu esse tratamento aos governadores e prefeitos, que trouxe a Brasília para a foto no Planalto.

“Quando o Fernando Henrique ou o Lula estiveram por momentos à beira do precipício, o corpo político os puxava para dentro. Ela, o pessoal ajuda a empurrar”. A metáfora é de um peemedebista e reflete a ira que tomou conta do partido também alijado das consultas antes do besteirol da Constituinte exclusiva e restrita. Nem o vice-presidente, o jurista e constitucionalista, Michel Temer, presidente de fato do partido, foi consultado sobre a ideia.

Esta, por sua vez, não faz parte da chamada pauta das ruas. É um projeto do PT, desde que Lula a propòs à Ordem dos Advogados do Brasil, que a recusou. É a mesma OAB que agora aparece corrigindo a proposta para um plebiscito pela reforma política.

Governar sem o Congresso é uma sedução de todos os governantes com a popularidade em alta, mas nem risco calculado pode ser considerado: é crise certa em algum momento, à medida que a complexidade inerente à administração de um país impõe desgastes inevitáveis. É, acima de tudo, um sinal de viés autoritário do presidente, de seu partido – ou de ambos.

Demorou, mas a presidente Dilma está sendo levada pela realidade a interagir com o poder político. Já o encontra irritado, num clima suprapartidário, porque a exclusão das consultas sobre a convocação de uma Constituinte alcança a todos os parlamentares e, igualmente, a todos provoca, sem disatinção partidária ou ideológica. É mexer com o sentimento corporativista da instituição.

Ontem à noite, no jantar em que o vice-presidente Michel Temer reuniu o partido, no Palácio Jaburu, esse foi um prato que os convidados levaram quase toda a noite consumindo. Lentamente, num clima em que até o isolamento político do ex-presidente Vargas foi mencionado.