Crise expõe governo gerenciador, de operação no varejo

João Bosco Rabello

20 de julho de 2011 | 13h08

O foco compreensível na crise do ministério dos Transportes encobre, por ora, os problemas em outras áreas do governo de igual importância estratégica para a Copa do Mundo.

Nos ministérios do Turismo e da Justiça não se percebe qualquer sinal de ação mais efetiva, ou mesmo programas objetivos, que autorizem otimismo maior com relação a estrutura e segurança para receber torcedores de todo o mundo em 2014.

Do Turismo sabe-se apenas o que já se sabia quando assumiu a Pasta o octogenário Pedro Novaes: que ele gosta de cobrar conta de motel ao Estado e que tem aversão assumida à tecnologia. Ou seja, que não há nada acontecendo ali.

Do ministério da Justiça, teoricamente o fomentador de uma política de segurança pública em âmbito nacional,sabe-se um pouco mais depois da entrevista do ministro José Eduardo Cardozo ao repórter Raymundo Costa, do Valor, na última segunda-feira.

Porém, é mais do mesmo, ou seja, pouco além do diagnóstico da segurança no País, que começa na histórica crítica à rivalidade entre as polícias civil e militar, à dificuldade de um trabalho integrado nas fronteiras e segue pela falta do mais elementar sistema nacional integrado de cadastros de criminosos e registros de ocorrências.

O que significa que o PT continua eficiente no diagnóstico, característica adquirida em anos de oposição, mas ineficiente na ação executiva, algo que a experiência de oito anos no Poder ainda não corrigiu.

Ao contrário, é surpreendente como no poder apossou-se do discurso de oposição como se do governo não fizesse parte.

Saudada como a chance de o país produzir uma revolução na  infraestrutura e na segurança, a Copa rendeu até aqui um questionado regime diferenciado de licitação. Nada mais.

Atribui-se nos meios políticos ao método centralizador da presidente Dilma Rousseff parte dessa paralisia, o que fica de certa forma confirmado no trecho da entrevista que Cardozo justifica um silêncio constrangedor sobre o programa do marco regulatório para a Internet como imposição da presidente.

Mas, independentemente do estilo centralizador de Dilma, o fato é que ela mesma parece não ter o que apresentar à nação que se pudesse chamar de um programa ou de metas de governo.

O que significa que por falta de autonomia ou por insuficiência (mais provavelmente por ambos), não é produzido no ministério nada que se possa transformar em uma reclamada agenda positiva que resgate o governo do varejo que é obrigado a operar diariamente.

Trocando em miúdos, não se tem a percepção de um governo com um rumo estabelecido, que saiba onde está e aonde quer chegar. Ele é percebido mais como uma gerência do que como um governo, que se ocupa de administrar um espólio que ajudou a produzir.

Não se pode produzir uma agenda positiva da noite para o dia, a menos que esta seja entendida como um factóide de objetivo diversionista. 

O governo hoje é o governo do ministério dos Transportes., que lhe deu uma bandeira importante, porém única: a do combate à corrupção. Ainda que seja louvável, não deveria ser impeditivo de outras ações que estão na expectativa geral.

 

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