Crise e oportunidade

João Bosco Rabello

19 de março de 2015 | 17h11

A presidente Dilma Rousseff negou hoje fundamento às informações sobre uma reforma ministerial, atribuindo-as a especulações dos jornalistas, muito embora  o tema circule com desenvoltura no Congresso, principalmente na base aliada, mas também seja defendida por gente do governo.

Mas, pelo menos, duas nomeações parecem inevitáveis –  a de Cid Gomes, exonerado ontem da Educação, e do ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social , Thomas Traumann, cuja análise reservada sobre o governo, vazada para a imprensa, exibiu  o conflito interno e  dificulta sua permanência no cargo.

O que se disse, a partir de então, é que essas mudanças, imprevistas até há pouco tempo, poderiam abrir oportunidade para uma reforma ministerial.

Com a articulação do Planalto sem resultados, passa a ser um luxo em momento de crise, ampliá-la, ao invés de mudá-la.  Ampliar pressupõe mais gente fazendo a mesma coisa, quando a hora é de otimizar recursos – não só materiais, mas humanos -, diante da necessidade de reequilibrar as forças da base na estrutura de governo.

Trocando em miúdos ,  a presidente precisa atender à demanda do PMDB, que não é exatamente por quantidade de pastas, mas de qualidade do ministério, caso da Integração Nacional, provável destino do ex-presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves. Se a entrada dele no ministério é incontornável,  já se tem aí um terceiro nome na reforma negada.

O que parece mais distante é o remanejamento de cargos como especulado, com a troca na Casa Civil de Aloísio Mercadante por Jacques Wagner. Não faz muito sentido,  porque a função de articulação política pode ser distribuída – e exercida -, independentemente dos cargos ocupados por seus atores.

A pasta da Defesa não é exatamente adequada a uma alta  rotatividade de ministros. Recém-empossado, Wagner já participa da articulação política mesmo no cargo fora do Palácio.  Foi o que ocorreu quando procurou o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para abrandar seu ânimo, exaltado desde o anúncio de sua inclusão na chamada Lista Janot, dos parlamentares investigados pelo Supremo Tribunal Federal na operação Lava Jato.

Menos traumático seria preservar Mercadante na Casa Civil, com a missão da função restrita a assuntos administrativos, delegando a outros a articulação política.  Afinal, a clássica receita política estabeleceu há muito tempo que o comando não está na cabeceira da mesa, mas onde senta quem o detém.

No governo Geisel, conta-se que instado a ocupar a cabeceira por um ministro que chegava para a reunião das nove, o presidente mostrou seu conceito de autoridade declinando da oferta. “A cabeceira é onde eu sentar”. Portanto, não importa de onde venha o raio, mas que ele venha.

Com essa lógica, a presidente pode reservar o ministério da Educação, em primeiro lugar, para alguém que o queira de fato, com vocação e biografia para dar alguma consistência, ou resquício de realidade, ao retumbante slogan “Pátria Educadora”, que inseriu no seu discurso de posse no Congresso Nacional.

Cid Gomes jamais quis ser ministro da Educação. Como o apóstolo Pedro, negou-o três vezes, por desejar  um cargo no exterior. Não sentia nem mesmo identificação e conhecimento da área na dimensão necessária para comandá-la. Estava ali para cumprir o papel de enfraquecer o PMDB, através do fortalecimento de legendas numericamente menores, do que é exemplo também o PSD no Ministério das Cidades, ocupado por Gilberto Kassab.

Em um cargo que não desejou e que assumiu por insistência da presidente, as razões para Cid Gomes se empenhar em uma reconstrução das pontes com a Câmara inexistiam. Sobretudo, porque a fragilidade política do governo já começa a assustar mesmo os que estão dentro do navio, para alguns já um “Titanic”, analogia do  senador Romero Jucá (PMDB-RR), que resiste à função de líder porque a compara a uma suíte de luxo no transatlântico histórico.

Com equipe medíocre – e aqui o termo vai empregado no sentido léxico restrito, de mediano -, não se enfrenta uma crise das proporções da que já se instalou no país. Não falta aos ministros chamados palacianos, conhecimento de causa, mas trânsito e dimensão política para exercerem o papel de articuladores junto ao Congresso. Como resta comprovado depois que ganharam a cobertura de colegas com biografia e receptividade bem maior no Legislativo, casos de Aldo Rebelo e Eliseu Padilha, entre outros.

Guardadas as proporções, no governo Collor, o presidente absorveu tardiamente essa lição e quando se dispôs a trocar o ministério medíocre que montara, já era tarde. Conseguiu, de fato, trazer para o governo notáveis como Marcílio Marques Moreira, para a Fazenda, e Célio Borja, para a Justiça, mas estes já aceitaram o convite com a antevisão de que assumiam como ministros de Estado e não de governo.

Ou seja, assumiram com a missão de dar estabilidade política e institucional na fase seguinte ao impeachment, cientes de que Collor não se sustentaria no cargo.

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