Criminalidade em Brasília ameaça reeleição de Agnelo

João Bosco Rabello

03 de fevereiro de 2014 | 17h00

Nos primeiros vinte dias do ano, 1447 crimes foram registrados no Plano Piloto de Brasília, numa estatística que revela a perda do controle do governo do Distrito Federal sobre as forças policiais encarregadas da segurança pública na Capital do país.

Os números são muito mais alarmantes quando examinados de 2012 para cá, quando entrou em vigor a operação tartaruga coordenada pelas associações policiais.

Segundo os registros da Secretaria de Segurança Pública, nas últimas 48 horas foram 12 homicídios, que se somam a 73 outros que já tinham levado o pânico à população.

Desses, cinco latrocínios, sem contar invasões de residências, com reféns, num arrastão que não distinguiu cidadãos anônimos de autoridades.

No final de semana, a casa do embaixador Jório Dauster, no Lago Sul, foi invadida e feitos reféns ele e a família. Semanas antes, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, teve a sua roubada por ladrões que acessaram a residência pelo Lago Paranoá.

Antes, ainda, o brigadeiro da Aeronáutica, João Carlos Franco de Souza, fora assassinado na entrada da garagem do prédio onde morava na Asa Sul.

O ataque a residências e autoridades que a população sabem mais protegidas que o cidadão anônimo, contribui para ampliar o clima de medo e insegurança. Se não escapam à onda de criminalidade nem os que têm, por imposição institucional, a blindagem do Estado, quem estará a salvo?

É o que gera a conclusão de que o governo perdeu o controle sobre as tropas, que insistem na paralisação por melhores salários, em afronta a determinação judicial em sentido contrário.

Existe uma Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares do DF (Aspra), cujos textos em seu site e declarações formais, desafiam o Ministério Público. “A Aspra não vai marcar nenhuma reunião com a Dra Eunice Carvalhido, para de joelhos pedir perdão à Procuradora geral de Justiça do DF. Até porque o chefe de cada promotor é a Constituição e não Carvalhido”, diz uma das mensagens.

Em outro texto, a associação, que comanda a operação tartaruga decretada ilegal pelo MP, contesta a indenização dada a trabalhadores das empresas de ônibus encampadas pelo Estado e sugere que ao invés de punir os policiais em greve, investigue a doação de “dinheiro do erário para empresários milionários da iniciativa privada, no paraíso da impunidade aos mais ricos, que é o Brasil”.

Vê-se aí a conotação política do movimento que vem promovendo sucessivas paralisações desde 2012, em operações cujo êxito é medido pelo crescimento do crime. É uma estatística que se alimenta da violência e da morte: tanto quanto maior o índice da criminalidade, melhor para o movimento.

Os policiais militares exigem isonomia com os civis, porém por mais que pudessem ter razão no mérito, o que ganham não justifica a omissão do dever constitucional de proteger a população.

Um cabo tem salário de R$ 4,1 mil e o oficial mais graduado, R$ 15 mil.   Continuam entre os mais bem pagos do país, num ranking que lideraram isolados por décadas.

Seus pares na Polícia Civil recebem, no piso, R$ 8 mil, com delegados recebendo em média R$ 20 mil. Diante desses salários, não há argumento que respalde qualquer reivindicação que extrapole a mesa de negociações.

Do ponto de vista do governo, é de se perguntar porque a insatisfação da tropa provoca movimentos de paralisação desde março de 2012, mês em que foram registradas 88 mortes e inseriu Brasília entre os lugares mais violentos do país.

Em outubro do ano passado, a Polícia Militar deflagrou a operação tartaruga outra vez, mas a Secretaria de Segurança só a reconheceu quando o brigadeiro João Carlos de Souza foi assassinado, em 4 de janeiro deste ano.

O governador Agnelo Queiroz possivelmente tenha errado ao recusar o apoio da Força Nacional, o que neutralizaria o poder de chantagem da polícia militar e traria de volta à vida real uma tropa que pede , nada mais, nada menos, que 66% de aumento – o que nenhum servidor no Brasil, e no mundo, obterá de uma vez.

A recusa também não privilegiou o interesse da população, que se vê desprotegida, mas o da posição no duelo governo versus grevistas. Dobrar os policiais, esgotadas as negociações, é missão do Judiciário, a quem cabe as providências diante da desobediência a determinação judicial. Ao governador cabe garantir a segurança pública.

Possivelmente o erro de Agnelo custe também o pouco de aprovação que ainda lhe restava para tentar a reeleição, agora aparentemente descartada.

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