CPIs no palanque

João Bosco Rabello

05 de agosto de 2014 | 16h47

Mesmo com as CPIs sob controle, o governo não conseguirá evitar que os escândalos na Petrobrás, centrados, por ora, em duas refinarias – a de Pasadena, nos Estados Unidos, e a Abreu e Lima, em Pernambuco, subam ao palanque com forte apelo negativo.

Não faltou empenho ao Palácio do Planalto para reduzir os danos políticos que os dois casos produzem, mas a estratégia escolhida – talvez, a única que restasse -, exibiu o medo do governo com as revelações de enredos comprometedores.

A fuga da investigação foi um patrocínio caro do Planalto, de retorno pequeno. Não só porque as duas comissões – da Câmara e Senado – não eram as únicas fontes de informação sobre os episódio, , mas também porque o próprio governo meteu os pés pelas mãos ao executar a blindagem da Petrobrás no Congresso.

O desgaste que já era grande com as manobras explícitas para transformar a CPI do Senado em chapa-branca e, mais tarde, para bloquear a oposição na Mista, sediada na Câmara, aumentou com a revelação da revista Veja, de que os depoimentos dos convocados foram combinados com parlamentares da base aliada.

A revelação da revista expõe mais uma vez o governo como fonte da própria denúncia, como deixa claro o vazamento do vídeo que a comprova, só possível a quem participava da reunião como integrante da farsa em construção no edifício da Petrobrás, em Brasília.

Essa denúncia partiu, pois, de dentro do governo, assim como o escândalo da refinaria de Pasadena, objeto principal das CPIs, tomou forma a partir de uma acusação da presidente da República à diretoria da Petrobrás, de manipular o Conselho, por ela presidido, para que aprovasse a operação.

Tem sido essa a regra no governo, o que desmoraliza a teoria conspiratória que atribui à mídia perseguição ideológica, um recurso permanente que emprega para desqualificar o mensageiro, mais das vezes portador de denúncias produzidas no âmbito do próprio governo ou do partido que o sustenta, o PT.

O mensalão tem origem em denúncia de um de seus integrantes, o ex-deputado Roberto Jefferson, cujo partido, o PTB, deixara de receber a quantia combinada para financiamento das campanhas de seus filiados. Ao exercer a cobrança, foi alvo de denúncia de suborno nos Correios, que ele identifica no PT. A partir daí, foi o que se sabe.

Mesmo assim, o ex-presidente Lula, que o reconheceu o esquema no início e chegou a pedir desculpas públicas, hoje diz que o caso não existiu e foi um golpe da mídia com as elites. A sucessão de malfeitos, porém, tirou eficácia a esse método, como fica patente na relação de causa e efeito entre a perda de capital político do PT e o desfecho do mensalão, que levou à prisão seus principais dirigentes históricos.

Tudo indica que assim como na economia, no campo político o recurso à terceirização da culpa não produz resultados como pretendia o PT. A queda da presidente Dilma Roussef nas pesquisas, tanto na aprovação de governo quanto na intenção de voto, é uma contundente demonstração do contribuinte de que identifica no governo – e em ninguém mais – a gestão precária do país, que gerou os protestos de junho do ano passado.

A insistência no método de negação custa ao governo hoje o cenário de quase nenhuma alternativa eleitoral consistente. Não pode ser propositivo porque implicaria em explicar as mudanças como reconhecimento de erros e a presidente não parece disposta a mudar suas convicções na área econômica.

Não o fazendo, mantém não mais a desconfiança, mas a certeza dos agentes econômicos de que um novo mandato representará mais do mesmo. A essa altura, qualquer gesto da presidente está comprometido pela corrosão da confiança dos investidores, sem os quais não reativa a economia.