Com plebiscito, Dilma faz opção pelo PT

João Bosco Rabello

02 de julho de 2013 | 13h00

Ao insistir no plebiscito – uma variante da estratégia que começou com a proposta de uma Constituinte exclusiva -, o governo deve supor que o desgaste pelo fracasso da ideia será debitado ao Congresso Nacional.  Recorre ao diversionismo para dividir o ônus da insatisfação popular exibida nas manifestações de rua e ratificada pela pesquisa Datafolha do último final de semana.

O problema é que a rejeição ao plebiscito não afetará a imagem do Legislativo, simplesmente porque nunca esteve na pauta das ruas – e nem na de qualquer segmento da população, a não ser como mero exercício das áreas acadêmicas. À reforma política deve preceder a de costumes, esse um dos recados dos manifestantes.

O que a insistência nessa estratégia demonstra é que a presidente Dilma Rousseff abraçou-se ao PT certamente com a intenção de resgatar as relações com seu partido, contaminado pelo queremismo pela volta de Lula, algo também bastante remoto. Com essa pauta, alienada dos movimentos populares, parece mais o clássico “abraço dos afogados”.

O plebiscito é uma manobra do PT com o objetivo de obter um cheque em branco para as reformas que prega desde a gestão do ex-presidente Lula, que introduz, entre outras medidas, o financiamento público de campanhas e o modelo de lista fechada – este, para resgatar o projeto de hegemonia congressual, aquele para justificar eleitoralmente o mensalão.

O ponto negativo mais crítico dessa reação do governo é que subtrai, ao invés de somar, na medida em que amplia o confronto entre PT e PMDB, num momento em que a unidade em torno da presidente se impõe como condição essencial a uma reversão da crise. A contraofensiva do PMDB, como se vê, já está em curso.

O otimismo do publicitário João Santana, que mantém a expectativa de vitória de Dilma no primeiro turno, revela, de um lado, que as reações continuam orientadas pelo marketing e, de outro, que o governo parece esquecido de que o declínio da economia está entre os fatores da queda no índice de aprovação.

Nesse aspecto, as últimas declarações da presidente Dilma se apresentam completamente fora do objetivo que deveria estar sendo perseguido, de recuperar a confiança do mercado, primeiro passo para a reversão das expectativas negativas que agravam as dificuldades do governo.

Mesmo sob o ponto de vista do marketing não parece restrito a especialistas a conclusão de que declarações como a de segunda-feira da presidente, considerando demagogia a proposta de redução de ministérios como parte de um programa de corte de gastos, conspira contra ela própria.

Dilma poderia não comentar a ideia – agora estimulada pelo PMDB -, ou descartá-la sem maiores comentários. Classificá-la de demagógica, porém, não é atitude inteligente – porque emocional e reativa. A reunião ministerial para cobrar aos subordinados resultados, foi uma exibição da irracionalidade de um modelo com 39 Pastas.

O Planalto talvez devesse levar em conta que ao Congresso é bem mais fácil responder à cobrança das ruas – que atinge a todos -, porque para funcionar basta legislar em sintonia com as reivindicações embutidas nas manifestações e abdicar – ainda que não por virtude, mas por necessidade -, do espírito corporativo que já abandonou o deputado Natan Donadon (PMDB-RO), notificado ontem da abertura de sua cassação.

Ao Executivo, porém, a resposta não é fácil: seu funcionamento está vinculado a resultados concretos de gestão, que se materializam nos serviços prestados ao contribuinte, realidade que têm por premissa prazos geralmente longos. Enquanto acossa o Parlamento, este age com rapidez, movido pelo instinto de sobrevivência. Que parece faltar ao governo.

Uma das explicações para essa aparente desorientação do Planalto estaria na necessidade de ganhar tempo para construir saídas mais consistentes, embora estas e discursos lógicos não sejam excludentes.  Ao invés de ganhar, o governo pode estar perdendo um tempo precioso.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: