Com Lula, rodada final da reforma

João Bosco Rabello

20 Janeiro 2014 | 17h00

A reunião com o ex-presidente Lula hoje, no Alvorada, indica que a presidente Dilma Rousseff viaja a Davos, depois de amanhã, com a reforma ministerial fechada. É reservada ao antecessor a rodada final que decide as mudanças ministeriais determinadas pelas eleições deste ano, impostas pela saída de ministros-candidatos.

Desde que o declínio dos seus índices de aprovação popular impôs à presidente o exercício cotidiano da política, Lula tem sido o verdadeiro articulador no campo em que Dilma é efetivamente aprendiz. O mapa político brasileiro, com suas complexas alianças, é matéria para graduados e, nesse aspecto, a presidente tem um guia privilegiado.

A reunião de hoje foi antecedida de conversas entre Dilma e o presidente do PT, Rui Falcão, e com o presidente de fato do PMDB, o vice Michel Temer. Com ambos foi possível mapear as zonas de desconforto na relação entre os dois principais partidos da base de sustentação do governo, cuja temperatura é possível medir pela insatisfação do PMDB.

Parece claro que o governo precisa encontrar uma fórmula compensatória para atenuar a revolta do PMDB com o que considera favorecimento ao rival na aliança, titular dos ministérios mais estratégicos em ano eleitoral. Dilma já andou demonstrando a Temer conhecimento minucioso dos cargos de segundo e terceiros escalões ocupados pelo PMDB com razoável potencial eleitoral.

Na impossibilidade de ampliar a presença do partido no primeiro escalão, é por aí que será pensada a forma de dar algum equilíbrio na relação entre os aliados. O governo lida com dificuldades na construção das alianças em Estados eleitoralmente decisivos, como Rio, Minas e São Paulo e não pode desconsiderar o poder regional do PMDB como fator estratégico na votação nacional.

Sabe-se, a essa altura, que Lula não confia tão cegamente na candidatura do vice-governador do Rio, Luis Fernando Pezão, a ponto de obstruir o caminho do senador Lindbergh Farias, cuja confirmação na disputa desintegra por completo a aliança entre PT e PMDB num dos três maiores colégios eleitorais.

Também é certo que a continuidade da gestão no ministério da Saúde, mantendo a Pasta sintonizada com a campanha de Alexandre Padilha ao governo paulista, exclui alternativas mais expressivas politicamente para o posto, como chegou a ser especulado.

Aparentemente está decidido o nome do secretário de Saúde de São Bernardo do Campo, Arthur Chioro, uma escolha atribuída a Dilma, mas que certamente é fruto de entendimento com o ex-presidente Lula.

O grande drama é o Maranhão, onde o cenário expôs em seu grau máximo de intensidade a incoerência histórica da aliança do PT com o senador José Sarney (PMDB-AP), eleitoralmente insustentável no Estado, onde Lula já teve de intervir uma vez para forçar o apoio do partido ao ex-presidente da República e do Senado.

Lula também defende o nome do empresário Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas e filho do ex-vice-presidente José Alencar, para o lugar de Fernando Pimentel, no ministério do Desenvolvimento e Comércio Exterior. Acha que a escolha pode somar ao esforço de resgate da confiança do setor empresarial. Essa é outra decisão que parece já acordada com Dilma.

Embora mais pessoal, a substituição de Gleisi Hoffmann , na Casa Civil, será também discutida entre Lula e Dilma. A escolha se dará, pelo que se sabe, entre um perfil político, como o do ministro da Educação, Aloísio Mercadante, e um técnico, o do secretário-geral do Ministério da Previdência, Carlos Gabas.

Se pensada pela visão estrita da gestão de governo, Gabas faz mais sentido nesse momento, porque a presidente já tem em Mercadante um coordenador político informal e moldaria mais ao seu gosto o cargo com o perfil técnico. Mas a importância de afinar a Pasta com a campanha pode impor uma escolha política.

Com arestas no PT –  uma delas, o próprio Lula-, o ministro da Educação pode também ficar onde está e continuar atuando politicamente, ou ir para a equipe de campanha, onde sua autoridade será necessariamente diluída, o que parece mais ao gosto do PT.

Por fim, Davos, que Lula também não deixará de abordar com Dilma, que estreia no palco do capitalismo onde ele já brilhou. Em condições bem mais adversas, Dilma busca tardiamente resgatar a confiança de investidores no seu governo, visto como ideologicamente restritivo ao lucro e hostil nas relações com o mercado.