Com governo imobilizado, violência em Brasília já chama a atenção externa

João Bosco Rabello

09 de março de 2011 | 15h34

Eis que o setor hoteleiro de Brasília ganha dimensão internacional. Não por uma eventual descoberta virtuosa até aqui despercebida pelos moradores da Capital. Ou por algum elemento arquitetônico à altura do gênio de Niemeyer, porventura escondido.

A visibilidade súbita vem de um informe do Departamento de Estado norte-americano sobre a violência, que mapeia as áreas de risco para seus turistas em todos os pontos do planeta.

O informe dos EUA, segundo José Meirelles Passos, no jornal O Globo, diz que Brasília “outrora livre dos índices de criminalidade registrados em outras cidades brasileiras, agora tem significativos problemas de crime, em especial no setor hoteleiro e nas áreas turísticas”.

Constar desse informe, cujo foco no  Brasil recai historicamente nas favelas cariocas submetidas à violência do tráfico, é resultado da dedicação de sucessivos  governos à corrupção, coincidentemente a partir da autonomia política da Capital.

Nenhum desses governos apresentou à população qualquer política para áreas estratégicas como Segurança, Educação, Saúde, Transportes, entre outras.

Só a infra-estrutura mereceu investimentos, mesmo assim naquelas obras que podem render caixa-dois e propinas, com total desprezo à visão humanista.

Privilegiada pelo tamanho e pelo pouco tempo de vida, Brasília era, há duas décadas, um laboratório pronto para a implantação de programas urbanos de vanguarda, mas sucumbiu à mesmice dos planejamentos superados pelo tempo,  aplicados a cidades seculares, como Rio e São Paulo.

Aqui o pedestre, portanto o cidadão, não dispõe de calçadas (que dizer de ciclovias) e os serviços de saúde e educação são absolutamente desproporcionais aos recursos a eles destinados, que provêm do governo federal, através do Fundo Constitucional que sustenta a Capital com bilhões de reais.

A fiscalização do Estado não existe como ficou demonstrado pelo cenário de corrupção descortinado em vídeos de um policial corrupto que a tudo e a todos gravou para sua segurança pessoal.

E que, como os denunciados – distribuídos estrategicamente pela rede mafiosa nos três poderes e no empresariado -, continua livre leve e solto, a zombar da sociedade, numa prova de que sua estratégia estava correta.

Quem dera que o informe norte-americano fosse preciso ao restringir a violência na cidade ao setor hoteleiro.

Desde o governo passado ficou patente que o policiamento da Capital não é mais prerrogativa do Estado, mas das próprias corporações policiais, especialmente da Polícia Militar, cujo contingente está em grande parte atrás das mesas da estrutura burocrática, cedida ao governo federal.

E dela não quer sair, desafiando governos que perderam a autoridade moral para exercer a cobrança hierárquica, numa exibição da falência do poder constituído. Tudo isso, às portas do Palácio do Planalto.

Quando a presença policial nas ruas é visível, algo cada vez mais raro, é  passiva. A abordagem a transgressores é evitada, possivelmente por se tratar da cidade com maior número de inimputáveis por metro quadrado.

O receio fundamentado de ouvir o “sabe com quem está falando”, mais que tolerado, cultuado, na Capital da República, gerou uma polícia passiva e acomodada, capaz de fazer olhar de paisagem para um delito cometido às suas vistas.

Tudo isso deu no que deu – um governador destituído e preso -, mas tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.

Sem a intervenção federal, negada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), apesar da contundência dos fatos e do apelo do Procurador-Geral, Roberto Gurgel, a rede criminosa que levou Arruda à prisão, se reorganizou, seus interesses foram restabelecidos e o governo continua acuado.

O novo governador, Agnelo Queiroz (PT), mantém o silêncio com que assumiu há 68 dias, abrindo mão mesmo do recurso de debitar a inércia de sua gestão à herança maldita que recebeu.

De esperança, o início do que pode vir a ser o striptease do clã Roriz, a partir do flagrante da deputada federal Jacqueline Roriz (PMN-DF) recebendo maços de dinheiro com origem em propina na campanha eleitoral de 2006.

Que teoricamente poderá provocar uma espécie de efeito dominó no submundo da política local, a partir da reação do ex-governador e ex-senador “renunciado”, Joaquim Roriz.

Uma espécie de guerra de extermínio, enredo  comum às maiores máfias da história.

 Porém não terá sido pela ação policial ou judicial, mas pelo instinto de sobrevivência do maior símbolo da corrupção nos governos Roriz e Arruda, o policial Durval Barbosa.