Clamor por mudanças supera índices e candidatos

João Bosco Rabello

02 Dezembro 2013 | 16h00

Ressalta da pesquisa mais recente do Datafolha o aparente paradoxo  de um governo com 41% de aprovação , com viés de alta,  e um porcentual de 66% de eleitores que desejam uma mudança na forma de governar.

O viés de alta aparece na corrida presidencial em que Dilma, segundo o instituto, pontua de 41 a 47%,  conforme  os cenários e seus adversários. O índice pelas mudanças é, pois, maior que o de aprovação da presidente – como governo ou como candidata.

A conclusão a que levam esses resultados é de que a população quer mudanças, mas não as projeta em algum candidato da oposição, o que é mais dramático para esta última, por indicar sua incapacidade de encontrar o discurso e, mais que isso, as propostas que possam criar as expectativas de atendimento a essa demanda.

É o que explica a preservação dos índices da presidente-candidata, indicando que parcela do eleitorado, à falta de alguém que possa ser identificado como executor dessas mudanças, ainda pode confiar  a Dilma uma reorientação de governo na direção que aspira e que manifesta.

É uma fotografia que pode ter a leitura adicional de reforço à sensação de exaustão com a batalha entre PT e PSDB, exacerbada por conveniência do primeiro, que investe  na descaracterização ideológica do rival, acusando-o de práticas conservadoras, como a privatização, que também faz no governo. Um duelo inútil ao contribuinte.

Por esse raciocínio,  haveria no eleitorado uma percepção de que a presidente Dilma passa ao largo dessa contenda, historicamente anterior à sua filiação ao PT. Assim como já estaria identificada nas últimas ações de governo, onde se inserem os leilões de Libra e, principalmente, dos aeroportos, uma renúncia salutar à postura estatizante antagônica ao clamor por melhores serviços públicos.

Diante do longo prazo necessário aos efeitos desse ato de contrição privatizante do governo, no entanto, o desejo de mudança é o que permanece como fator de realidade para todos os candidatos, Dilma Rousseff incluída. Antes de tudo, e preciso identificar quais mudanças integram a pauta desses dois terços do eleitorado.

O PIB do terceiro trimestre continuará “pibinho” e reafirmará o diagnóstico de desaceleração e de retração da economia, mantendo o governo refém da incerteza sobre o controle político desse revés por prazo que o preserve de seus efeitos mais drásticos antes do fim da campanha.

O porcentual de 66% por mudanças é inquietante para todos os candidatos, cada um desafiado em seu patamar. Se aos menos favorecidos nas pesquisas cabe encontrar, em pouco tempo, o discurso que os sintonize com o eleitor, ao governo cabe avançar na retomada dos fundamentos econômicos cuja flexibilização desarrumou o que vinha bem.

A menos que decida minimizar a preocupação  mostrada pelos pesquisados com o aumento da inflação e o receio da queda futura do emprego.

A campanha ainda não chegou ao ponto em que mobiliza a população, o que a torna alvo fácil da propaganda governista, feita com base em ofertas permanentes e diárias que, se não viram realidade imediata, passam a sensação de que estão acontecendo.

Mas o estágio seguinte, passadas as festas de final de ano e o carnaval, se não igualam, equilibram mais a visibilidade de todos os atores eleitorais – para o bem e para o mal de cada um.

E, nesse ponto, os males de governo costumam ser mais danosos, porque a exposição de atos e benefícios estará restrita pela legislação e o arsenal de recursos já terá sido usado na sua fase de liberdade mais ampla.

É quando aumenta a percepção dos defeitos em cenário de qualidades escassas.