Chioro: governo constrói risco ao minimizar investigação

João Bosco Rabello

24 Janeiro 2014 | 11h42

O secretário de Saúde de São Bernardo do Campo, Arthur Chioro, não está sendo investigado pelo Ministério Público por ter uma empresa, mas por esta manter contratos com diversas prefeituras do PT, num claro conflito de interesses. Donde se conclui que o governo explica o que não foi questionado ao comunicar que ele se afastará da empresa para assumir o ministério.

Não se trata do que vem à frente, mas do que ficou para trás. Ou seja, não é relevante para a afirmação de idoneidade de Chioro a imposição legal do licenciamento para o futuro cargo no ministério, mas a falta deste no exercício do cargo atual, de secretário de Saúde municipal. O governo usa o futuro para desviar do presente.

É um velho truque para seguir adiante, atropelando uma liturgia necessária ao processo público, que mais tarde poderá trazer dor de cabeça maior. A empresa de Chioro é uma consultoria, que atua especificamente na área de saúde, onde o secretário de São Bernardo desempenha sua função pública, agora elevada ao ministério da Saúde.

O ex-ministro da Casa Civil, Antônio Palocci, deixou o cargo na esteira de uma denúncia que surgira insignificante, mas que ganhou corpo à medida em que não tinha respostas convincentes, e que também envolvia atividades de consultoria, desconhecidas à época de sua posse. Chioro corre risco semelhante, embora sua investigação seja conhecida desde já.

Mais prudente seria o governo levantar a consistência da investigação em curso no Ministério Público, certificar-se de sua inofensividade para que Chioro exerça o cargo de ministro da Saúde – ou não -, antes de minimizar a questão. Não faltarão interessados em mapear as ações da Consaude Consultoria, Auditoria e Planejamento Ltda, empresa de Chioro, iniciativa que poderá tirar-lhe o sono – e do governo – mais tarde.

Das últimas 48 horas para cá, o enredo começou a ganhar aquele desenho de uma emenda pior que a outra.
Ontem Chioro anunciou sua saída da empresa, substituindo-se por sua mulher. Não podia ser menos convincente .

Não há crime em ter uma empresa, mas quando seu dono assume uma cargo público deve dela desligar-se com a máxima transparência possível.

Não parece caminhar nessa direção a condução dada por Chioro – com o silêncio autorizativo do governo -, para o seu caso.