Cenário ainda é instável para Dilma

João Bosco Rabello

13 de agosto de 2013 | 19h00

À parte a leve recuperação da presidente Dilma na pesquisa mais recente, o dado de maior importância da consulta é a blindagem que pode representar para sua frágil aprovação  o índice registrado pelo seu mentor, o ex-presidente Lula, com 51% de intenções de voto, o que lhe daria vitória no primeiro turno. Embora sujeito a oscilação para baixo, esse porcentual funciona como uma garantia de vitória quando acionada na campanha.

Significa também que o ex-presidente conseguiu se descolar dos maus resultados do governo de sua afilhada política, muito embora seja ele o fiador de sua eleição e da propalada – mas não materializada – competência gestora.  Resta agora o tempo necessário para avaliar a consistência da melhora da presidente, ainda dependente da economia para se consolidar – é o que se presume.

Como em política, o passado é só referência e o futuro, expectativa, o presente é que orienta as reações dos atores desse processo. E o presente indica que Dilma pode subir “puxada” novamente pelo prestígio popular de seu mentor, especialmente quando em campanha aberta com sua participação plena.

A reação positiva na última pesquisa não se deve somente à movimentação da presidente, mas principalmente ao ingresso de Lula no processo. Com 51% de apoio, ao reunir sua imagem a Dilma, proporcionou o que pode ser o início de uma reversão ainda maior. Até seu reingresso na cena, a imagem de Dilma era a de abandonada pelo PT e acuada pelo PMDB.

Tal circunstância sugere, no primeiro momento, que o cenário de Lula novamente candidato está afastado pelo próprio ex-presidente. Uma vez emprestado seu apoio público à reeleição de sua afilhada, e exitoso na ordem unida dada ao PT no mesmo sentido, não haveria razão para se por em dúvida a sinceridade política de seus atos em favor da presidente.

Esse é o presente. Mas o futuro guarda uma condicionante ainda para Dilma: a consolidação da reação nas pesquisas, com uma recuperação mais consistente da registrada agora. Se os seus índices não crescerem na proporção do prestígio do mentor, o movimento pelo retorno deste será inevitável. Com Dilma abaixo dos 45%, e Lula com 51%  e um atestado médico do Sírio e Libanês, a perspectiva de um segundo turno difícil e disputado dificilmente evitará o retorno do queremismo no PT.

A economia, considerada decisiva para a consolidação da recuperação presidencial, ainda  é bastante vulnerável, ao contrário do que pode sugerir a melhora na inflação. De qualquer forma, o governo aposta no estancamento da sangria inflacionária , associada à retomada do crescimento, a partir dos leilões previstos para este segundo semestre na área da infraestrutura, para  calar seus críticos, que vê como inimigos mercenários do pessimismo.

O ex-ministro Delfim Netto, que nos últimos meses foi um desses críticos, já considera que o governo deu os passos necessários para reconquistar a confiança do mercado, ao admitir o esgotamento de práticas como a maquiagem de contas, o modelo de consumo, e a ideologia contra o lucro. Acha mesmo que já não se explica a apatia do empresariado em contraste com os indicativos de melhoria já perceptíveis.

Por ora, nem as pesquisas e nem o otimismo devolvido por Lula ao PT, e pelo governo a Delfim, são suficientes para reduzir a pressão da base sobre a presidente Dilma. Ainda não houve uma mudança capaz de desinflamar o PMDB e de conter a inquietação no PT. Nesse contexto, a presidente deverá manter a sua nova versão de conciliadora, cujo prazo de validade corresponde a uma possível – mas não necessariamente provável -, reversão consistente dos índices de aprovação.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.