Campanha faz Dilma mais concessiva ao PT

João Bosco Rabello

04 de fevereiro de 2014 | 16h00

A campanha pela reeleição , que a encontra com índices vulneráveis de aprovação, impôs à presidente Dilma Rousseff,  um comportamento mais concessivo do que vinha tendo em relação ao PT, como indica o desenho da reforma ministerial meia-sola que começou a anunciar ontem.

O cargo mais estratégico, pela proximidade com o gabinete presidencial, ocupado por Aloízio Mercadante , retira da Casa Civil o tom técnico que Dilma fez questão de imprimir à Pasta ao escolher a senadora Gleisi Hoffmann para tocá-la. Uma escolha pessoalíssima que sequer constava como possibilidade remota nos planos do PT.

Mercadante não tem a unanimidade de seu partido, mas atende mais que as opções especuladas, como Carlos Gabas, Vice Ministro da Previdência, ou Miriam Belchior, que chegou a ser cogitada.  Qualquer um desses dois representaria um não ao PT que pressionava por um político de seus quadros no posto. O que acabou ocorrendo.

Um ministro da Saúde pescado em São Bernardo do Campo, diz-se por escolha da presidente, não deixa de ser bem vindo pelo PT. Arthur Chioro, secretário de Saúde do município do ABC paulista, base de Lula, dará suporte ao ministro que sucede em sua campanha ao governo de São Paulo. Essa, a sua missão precípua: dar continuidade e visibilidade ao trabalho de Alexandre Padilha.

O Planalto deu cores de escolha pessoal para Chioro, explorando uma manifestação de simpatia da presidente Dilma quando teve um primeiro contato com ele em missão oficial. Um interesse com a semente estratégica de personalizar uma escolha que teria de fazer dentro do figurino que o partido impunha.
Chioro, assim, é do PT, mas na versão oficial, uma escolha pessoal da presidente.

O novo ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Thomas Traumann, sem qualquer sombra de dúvida, tem o respaldo do PT que faltava à sua antecessora, Helena Chagas, levada ao Planalto por Lula, mas alçada ao ministério por Dilma, que por ela sempre demonstrou  grande apreço e sintonia.
Ex-assessor de Palocci, na Casa Civil, Traumann tem as credenciais para o cargo, mas a ele chega no contexto da campanha que exige um engajamento ausente em Helena.

As próximas nomeações não concorrem em importância estratégica a não ser pelo cuidado do governo com escolhas que não atrapalhem seus planos. Como a ocupação dos cargos obedecerá à conveniência dos partidos aliados, sua distribuição proporcional às bancadas deve ajudar a compor e não a desagregar. Em termos de funcionamento da máquina administrativa não fará a menor diferença.

O ponto em que novamente se evidenciará a intensidade da concessão ao PT é o que Dilma reservará ao rival na sua aliança de sustentação, o PMDB, que pressiona por mais um ministério – o sexto para o partido na divisão do bolo.

Já deu todos os sinais de que não quer ceder, mas certamente torce o nariz para aplacar o PT, pois dificilmente terá condições de resistir ao assédio do PMDB. Além da pressão pública sobre a presidente, o PMDB recuou sua convenção nacional como forma de materializar a hostilidade e vaza números que revelam um racha no partido em relação à preservação da aliança.

Por eles, 294 convencionais não estariam com Dilma – 202 contra a aliança e 92 indecisos. Não é suficiente para revogá-la, mas serve para demonstrar à presidente que ela precisa trabalhar pela unidade do partido, em seu favor. Ou seja, ceder o sexto ministério.

A outra pressão está no Rio, onde o rompimento com o PT é ameaça concreta à desidratação da campanha presidencial, pela rearticulação do quadro estadual, com novos acordos em substituição aos que ruíram com a candidatura própria do PT em oposição ao governador Sérgio Cabral, aliado de ontem.


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