Campanha em plena crise

João Bosco Rabello

01 de agosto de 2013 | 16h00

A entrega, com alarde,  e em mãos, de R$ 8 bilhões ao prefeito Fernando Haddad,  acompanhado da crítica ao sistema de transportes do governo de Geraldo Alckmin, é, sem dúvida, um escancarado ato eleitoral da presidente Dilma Rousseff.  Ao lado da abulia que tomou conta do governo, indica prioridade para 2014 e negligência administrativa no presente, uma esquizofrenia que reforça a percepção de uma gestão sem rumo.

O súbito desfile de Dilma pelas ruas de São Paulo, após a entrega solene dos recursos federais, empresta o clima de campanha à programação presidencial, do “alto” dos 30% de aprovação do governo.  Este age como se já tivesse resolvido a pauta reclamada nas ruas, como se as manifestações não fossem voltar. Vida que segue, anuncia simultaneamente a liberação de R$ 6 bilhões em emendas parlamentares.

Nesse caso, entra em cena o Secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, introduzindo o verniz que faltou à presidente no trato com o Legislativo. Agora, popularidade em baixa e base em rebelião, as emendas parlamentares subitamente tornaram-se legítimas e não se inserem no contexto do toma, lá,dá cá, utilizado todo o tempo pelo governo para desgastar o Congresso.

De fato, a emenda parlamentar é Lei e representa recursos para benfeitorias nas bases de deputados e senadores, mas é de há muito tempo sonegada pelos governos que, apertados orçamentariamente, fazem economia nas searas alheias. E justificam o contigenciamento com a velada versão de que as emendas são para os parlamentares e não para seus estados.

Pois ontem Carvalho , parte do governo que assim agiu até aqui, pediu pela “descriminalização” das emendas parlamentares, como se nunca tivesse ajudado a criminalizá-la. Efeitos da queda de aprovação do governo e da demonstração de força do PMDB, agora alvo de salamaleques segundo a orientação do ex-presidente Lula.

Não por acaso, quase ao mesmo tempo, o presidente do PT, Rui Falcão, extirpa da nota do partido as críticas ao PMDB e reafirma a decisão de tê-lo como aliado em 2014, inclusive renovando a chapa com Michel Temer na vice. Mas o problema é que , assim como o governo em relação ao mercado, o PT não inspira confiança em seus parceiros, o que reduz a chance de êxito das promessas.

Nesse contexto, não é de se esperar que a promessa da presidente Dilma de liberar os R$ 6 bilhões de emendas seja suficiente para produzir um recuo na disposição dos deputados de aprovar o orçamento impositivo, tirando as emendas do alcance da tesoura do Executivo. Pode até acalmar os ânimos, mas os deputados já sonharam o sonho da independência política que o orçamento impositivo traz.

Assim, chega-se de volta ao primeiro diagnóstico feito sobre o governo, anterior às manifestações das ruas: a questão maior é a crise econômica, cujo desenvolvimento e desfecho dita todo o resto. Governo em baixa e questionado pela população perde o poder impositivo. Este agora, reside na perspectiva de aprovação do orçamento impositivo, que inverte a relação de forças no difícil relacionamento entre os dois Poderes.

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