Campanha de 60 dias amplia desvantagem da oposição

João Bosco Rabello

09 Dezembro 2013 | 18h00

Cobrados, dia sim, dia não, pela adoção de uma linha oposicionista mais intensa, os candidatos Aécio Neves e Eduardo Campos, submetem suas campanhas ao ritmo e temperatura que consideram adequados à fase de negociações anterior ao envolvimento do eleitor com a disputa. Faz sentido pela necessidade de otimizar o tempo para a consolidação das alianças, mas é uma estratégia com efeito colateral.

O cenário atual é mais grave para a oposição porque ao cronograma de feriados tradicionais se agregará a Copa do Mundo, estreitando ainda mais o período de exposição de Aécio e Campos e ampliando o da presidente Dilma Rousseff. O que recomenda alguma ação complementar que exponha individualmente os candidatos do PSDB e do PSB.

Talvez não haja muito mais a fazer diante do ritmo do eleitor que só se volta para a campanha, depois das festas de fim de ano, emendadas ao carnaval e à Semana Santa – um calendário que favorece historicamente candidatos à reeleição, cuja exposição inerente ao cargo lhes garante mídia espontânea e visibilidade em triplo.

Com as convenções nacionais espremidas entre o carnaval (este ano, em março) e a Semana Santa, a campanha que seria retomada em junho será adiada pela Copa para agosto restando praticamente 60 dias para sua plena realização.  Adiada também estará a atenção do eleitor para o assunto, como já dito, em detrimento dos candidatos que buscam visibilidade.

Esse calendário interfere na estratégia de convivência pacífica entre Aécio e Campos, recurso clássico para manter um ambiente plural de disputa que garanta a realização de um segundo turno. Nas bases de ambos, já se questiona que tempo restará para que se apresentem como concorrentes ao eleitor, desfazendo a imagem de dupla anti-Dilma para exibir identidade própria.

O lançamento de propostas de governo, reunidas em formato de programa, é uma das providências que ajudam a atenuar a desvantagem em relação à candidata oficial e que contribuiriam para estabelecer as diferenças entre os dois oposicionistas, poupando dessa tarefa o eleitor, para que ele mesmo não o faça em favor da candidatura que já conhece e que lhe aparece todos os dias na forma de governo.

Como pensam Aécio e Campos as grandes questões nacionais, parte delas levadas às ruas, de forma direta ou indireta, nas manifestações de junho, cuja materialização em forma de passeata desfez-se, mas permanece viva na pauta de insatisfações populares? Pensam exatamente da mesma forma, diferem em alguns pontos – e, nesses, como e por quê?

Pontualmente ambos já abordaram os temas, mas em algum momento terão de exibir suas diferenças, porque alianças entre concorrentes não valem para o primeiro turno, por dedução acaciana – são, nessa fase, concorrentes. O que levará um ou outro ao segundo turno, onde as alianças se consolidam, é exatamente a percepção do eleitor sobre qual oposicionista mais o agrada.

Nesse sentido, o tempo conspira em 2014 contra os dois adversários de Dilma Rousseff,  obstáculo que pode ser compensado com a propaganda na televisão, substituta dos tradicionais palanques, hoje metáforas para as alianças regionais.

Para os que se debruçam, nas respectivas bases oposicionistas, sobre o assunto, será decisiva que a individualidade dos seus candidatos fique bem definida nos programas de televisão gratuitos destinados à propaganda eleitoral, independentemente da perspectiva de aliança entre eles no segundo turno.

Não elimina a desvantagem na disputa com a candidata que se beneficia da exposição natural do exercício do cargo máximo  na estrutura política do país, mas atenua seus efeitos se  conduzida com eficiência.

Com esse cuidado, a oposição pode aspirar algum êxito na busca pelos votos dos 66% de eleitores que manifestaram nas pesquisas desejo por mudanças. Sem ele, porém, não alteram o cenário atual em que esses eleitores mantêm essas expectativas de mudanças com a própria candidata do governo.