Campanha da JBS e troca na agricultura irritam ruralistas

João Bosco Rabello

20 de agosto de 2013 | 18h23

Dois episódios voltam a acirrar os ânimos da bancada ruralista no Congresso contra o governo: a nomeação do advogado Rodrigo Figueiredo para a Secretaria de Defesa Agropecuária (DAS), do Ministério da Agricultura, e o uso do financiamento do BNDES ao grupo JBS-Friboi, no valor de R$ 7 bilhões, para uma estratégia, segundo a Confederação Nacional da Agricultura de consolidação do monopólio da empresa no mercado.

Em ambas, representantes do setor do agronegócio enxergam as digitais do PMDB, em parceria com o governo federal, pressionado pela ocupação de cargos do segundo escalão pelo partido. O Planalto fez chegar ao setor a informação de que a troca era incontornável politicamente, o que reforçou a desconfiança do meio sobre uma possível intervenção do ex-presidente Lula em favor do grupo Friboi, por sua vez apoiado pelo PMDB.

Rodrigo Figueiredo, apadrinhado pela bancada do PMDB de Mato Grosso do Sul, substituiu Ênio Marques na Secretaria de Defesa Agropecuária (DAS), considerada pelo setor “o coração” do ministério, e nenhuma gestão junto ao governo foi suficiente para evitar a troca. A operação produziu uma crítica contundente da senadora Kátia Abreu (PSD-TO), presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), da tribuna do Senado, na última sexta-feira.

A substituição foi considerada – e admitida pelo Planalto – como política, dado o reconhecimento técnico de Ênio para a função, ao contrário do sucessor, segundo representantes do setor. Integrantes da bancada estão convictos de que a nomeação foi interesse da JBS, que tem um dos sócios, José Batista Junior, candidato ao governo de Goiás. Junior, trocou o PSB pelo PMDB, por pressão do Planalto, depois que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, lançou sua candidatura à presidência.

O ingresso do empresário na política fez com que a JBS passasse a ser vista como uma financiadora de campanhas, aumentando a influência de Junior no partido ao qual se filou recentemente. Os adversários passaram, então, a considerar os recursos do BNDES, que tiraram o conglomerado de uma difícil situação econômica, como a fonte indireta dos recursos que chegarem aos candidatos do partido.

Especialmente porque o aporte financeiro, na sua origem, foi justificado como uma forma de a JBS assumir a construtora Delta, decretada inidônea após a CPI do Cachoeira e, portanto, sem acesso a licitações públicas. Como sua carteira era basicamente governos, temeu-se pela sua sobrevivência e por sugestão do ex-presidente Lula, a operação foi montada, chegou a ser oficialmente anunciada, mas acabou não acontecendo pela repercussão negativa. Mas o dinheiro entrou.

Na outra ponta, a CNA identifica na JBS-Friboi um comportamento predatório com o objetivo de monopolizar o mercado. Sustenta que a campanha promocional da marca a distingue como o único frigorífico confiável por ter o selo de inspeção federal quando, na verdade, outros 209 no país o possuem e têm seus produtos nas prateleiras dos supermercados. Além disso, extra-oficialmente, pecuaristas acusam a empresa de comprar pequenos e médios frigoríficos para fechá-los e eliminar a concorrência.

“O frigorífico JBS, em detrimento de centenas de pequenos e médios concorrentes, que passam por dificuldades econômicas, obteve do BNDES mais de R$ 7 bilhões, a juros módicos, que lhe permitem custear tal campanha e trabalhar pelo monopólio do setor”,  escreveu a senadora Kátia Abreu em sua coluna semanal no jornal Folha de S.Paulo”..

Os ruralistas voltaram ao mau humor com o governo depois da substituição de Ênio, sobretudo porque identificaram a participação do ex-ministro da Agricultura, Wagner Rossi, na JBS-Friboi, para a qual estaria trabalhando. Fiel ao vice-presidente Michel Temer, ele estaria por trás das movimentações políticas da empresa, influindo de forma indireta no governo que já deixou, sob acusações de corrupção que o tornaram insustentável no cargo.

Teria origem também no PMDB, associado a outros segmentos do agronegócio incomodados com a influência que a senadora passou a ter no governo Dilma, o movimento dissidente com o objetivo de lançar uma candidatura contra sua reeleição na  CNA. A iniciativa é do deputado, Valdir Colato (PMDB-SC), para quem a proximidade com o governo neutralizou a ação crítica da parlamentar em favor do setor.

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