Caminho sem volta

João Bosco Rabello

09 Janeiro 2014 | 19h30

Pode ser tardia a percepção da presidente Dilma Rousseff quanto à conveniência de preservar as pontes políticas com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, tendo ajudado a construir o clima beligerante com o candidato socialista, cujo ato mais recente foi a nota do PT, oficial e apócrifa, um reflexo novo da crise de identidade do partido.

Faz sentido o raciocínio que dita a inconveniência de Campos apoiar o tucano Aécio Neves no segundo turno, que o compromete com a renovação desse apoio em 2018, adiando sua meta de presidir o país.

No entanto, nem sempre a política segue a lógica. Campos, Aécio e Marina estão empenhados em romper o ciclo do PT no poder e isso pode levar a desenhos políticos pouco ortodoxos, num movimento que já produziu a surpresa da aliança entre o governador e a ex-ministra de Lula e ex-senadora do Acre.

Considerar a possibilidade de um acordo com Campos no segundo turno, prevendo cargos para o PSB em um eventual segundo mandato, evidencia que a presidente Dilma trabalha tendo o segundo turno como um dado de realidade irreversível. Não será fácil a reeleição e os efeitos da economia no cotidiano do cidadão não são cenários remotos, mas apenas dissimulados.

Versão corrente indica que o fator Campos num segundo turno ajudará uma possível opção da presidente Dilma pela composição de um ministério técnico em fim de mandato, após a saída dos ministros (uma dezena, conta-se) candidatos em 2014. Evitaria, assim, o efeito de continuidade dos substitutos se os escolhesse agora pelo critério político. E teria cargos para acenar a Campos na disputa contra Aécio.

Esse raciocínio, politicamente óbvio, não sensibilizou a presidente quando aconselhada pelo seu antecessor e mentor, Lula, a não tratar Campos como inimigo. A política ensina que não se deve ser eliminativo, sobretudo quando vitorioso – mais ainda quando se tem pela frente adversários com potencial respeitável.

O ditado de que nunca é tarde para correções seria até aplicável, não fosse o PT um partido fora da órbita presidencial, parcialmente refratário a Dilma e integralmente furioso com Eduardo Campos. A soma dessas rejeições faz com que a tarefa tardia de manter uma área de oxigênio para nova convivência com o PSB, se torne tão eficiente quando enxugar gelo.

De qualquer forma, a presidente deverá optar por um ministério mais técnico, de interinos, com alguns nichos políticos convenientes à estratégia de estabelecer uma sinergia entre as ações de governo e de campanha.

É nesse contexto que se explicaria uma Casa Civil com um viés político prevalecendo sobre o técnico , ao contrário do que se viu até aqui. Se for essa a opção, ela será ocupada pelo atual ministro da Educação, Aloísio Mercadante, mas não deixará de ser uma mesa de cabeceira presidencial, ao alcance direto da mão de Dilma.

Por onde se olhe, o que vem aí em janeiro não poderá ser chamado de reforma ministerial, mas um remanejamento geral no primeiro escalão, cuja bússola será a eleição. Não haverá emoção , nem suspense, como parece clássico com governos em fim de mandato.

A campanha centralizará mais as atenções do que a reforma, mesmo no ambiente político. E ambas estarão, para o eleitor, em terceiro plano até que acabe a Copa do Mundo.