Caças em casa, caos aéreo no horizonte

João Bosco Rabello

20 Dezembro 2013 | 20h00

Sobra da decisão pela compra dos caças suecos, um troco eleitoral na forma de lição aos Estados Unidos e França, a ser capitalizado certamente pelo governo durante a campanha presiencial. Sem o estardalhaço do discurso anti-imperialista, o Planalto deu tratamento diplomático de reciprocidade aos dois países, ainda que a opção pelos aviões suecos não tenha se baseado apenas nisso.

Deu-se o chamado efeito de “conjunto da obra”. A soma de todos os fatores, nesse caso, alterou o produto – dos Rafale inicialmente favoritos, para o Boeing, que começava a ganhar a dianteira, deu o Gripen, da Saab. Melhor preço, transferência de tecnologia desonerado de qualquer ônus político, ao contrário de seus concorrentes – a França, contra o Brasil na direção da Organização Mundial do Comércio (OMC); os Estados Unidos, onerados demais com suas questões externas para uma resposta consistente ai flagrante de espionagem muito acima do tolerável.

O episódio vale como ilustração da capitalização política de um governo concorrente à reeleição sobre seus demais adversários, mesmo quando simplesmente exerce o dever de tomar decisões no interesse do país. O simples ato de governo pode ter repercussão nacional e internacional e gerar visibilidade por combustão espontânea, dando matéria-prima considerável para os estrategistas de campanha.

O registro vem a propósito de realçar o desafio posto à oposição na busca do objetivo a que se determinou de romper o ciclo petista no poder. Será preciso mais do que já se viu até aqui, a se acreditar que a campanha não se baseará em padrões repetitivos e ineficazes, à espera de que a economia desestabilize o chão da candidatura oficial.

É verdade que os ventos a favor não são a regra e, muitas vezes, são exceção. Dá-se aí o efeito contrário, que não autoriza, no entanto, acomodação aos que concorrem em circunstâncias desfavoráveis a maior parte do tempo.

Feita a ressalva, segue que aos pontos somados pelos caças, com seus subprodutos eleitorais legítimos, já se contrapõe o desenho do caos aéreo cujo auge foi previsto para a fase mais preciosa do verão, estendida pela Copa do Mundo.

Como sempre se acredita que governos dispõem de trunfos para agir quando a previsão de mau tempo se materializa em tempestade, o pessimismo quanto ao desempenho do Brasil no quesito mobilidade urbana, com foco nos aeroportos, ficou como uma preocupação com a qual ninguém quis lidar, na esperança de que as coisas melhorassem e tudo desse certo.

Já não é, porém, coisa de cético ou pessimista de plantão: os aeroportos não dão vazão à demanda, os problemas se multiplicam e ainda se está na largada para o longo período do “Verão da Copa”, aquele que fica maior por causa do turismo prorrogado pelo torneio. O aeroporto de Brasília, ontem, bateu seus recordes históricos de movimento nessa época do ano. Com todos os efeitos inerentes.

Uma empresária mineira que tentava retornar a Belo Horizonte nessa sexta-feira, acabou viajando de ônibus. Não se dispôs, por indignação, a pagar R$ 2,6 mil por um trecho aéreo de Brasília à capital mineira, única possibilidade de embarcar. Não havia mais lugares nas duas maiores companhias aéreas e as demais aumentaram seus preços para extorquir o consumidor sem outra alternativa.

Todos os preços começaram a subir e há mais do que a lei da oferta e da procura nesse caso. Informalmente a Infraero já sugere que se evite programações de viagens no período que vai do carnaval a julho, exatamente o calendário de interesse turístico. A saturação está além dos índices já excessivos de outros anos.

Essa é uma das questões que figuraram na pauta das manifestações de junho – uma lista de reivindicações da sociedade caraterizada pela insatisfação com os serviços públicos, com a falta de infraestrutura, saúde, educação, transportes e o mais que se viu.

É uma pauta que aponta para a carência de realizações de cunho capitalista, que flagra um governo obstruído pelo imobilismo ideológico, espantalho de investidores, e uma oposição que não encontrou a forma de capitalizar esse momento.

A maior prova disso é a revelação das pesquisas de que 60% dos que desejam mudanças não as projetam nos candidatos oposicionistas, deixando um vácuo de insatisfação ainda à espera de quem o ocupe.

Se for por gravidade, será o governo.