Bloco de ministros mantém governo refém do curto prazo

João Bosco Rabello

25 de fevereiro de 2014 | 17h01

Contra um bloco, outro bloco. Assim o governo reagiu ao anúncio da base aliada de formação de um bloco para aumentar e dar consequência prática à pressão pelo atendimento de reivindicações que cozinham em banho-maria no Planalto. Um grupo de 12 ministros ocupará o balcão de atendimentos do Executivo no Congresso Nacional.

Abstraindo-se o formato, é mais do mesmo. O gesto de descer à planície para ouvir as queixas e demandas não é suficiente – como demonstra a permanência do bloco da situação -, para apaziguar os ânimos. A tropa do Planalto vai ouvir e negociar – o que, de resto, vem ocorrendo sem resultados em reuniões esparsas.

Por incapacidade ou por resistência – ou ambos -, o governo estreitou o tempo para as negociações, tornando-se refém do curto prazo para encontrar saídas que preservem o engajamento de sua base , principalmente do PMDB,  nas eleições gerais deste ano. Esse mal já está feito, a missão agora é remediá-lo, amenizando seus efeitos.

No cenário fisiológico que rege as relações entre partidos e governantes no Brasil, a resistência do Executivo é sempre uma virtude. Mas o governo parece ter cometido um erro de cálculo ao levar ao estresse o embate em ano eleitoral, quando os políticos jogam suas fichas na renovação dos mandatos.

O questionamento que continua presente nos insatisfeitos que se amontoam no bloco de oposição da base aliada é quanto à autonomia dos ministros para tomar decisões. Se não a tinham individualmente, porque unidos em um bloco passariam a tê-la?

O mutirão de ministros não terá autonomia para decidir casos que estão fora de sua alçada, a começar pela distribuição de cargos na reforma ministerial. Esses cargos só são cobiçados no último ano de mandato da presidente Dilma pela influência eleitoral que possam exercer.

São ministérios tampões, impondo uma negociação imediata em que o apelo da continuidade , condicionado à reeleição da presidente, tem pouca ou nenhuma valia. Há pouco a fazer em relação às emendas diante do contingenciamento imposto pela meta de superávit fixada há dias na tentativa de ir além da declaração de intenções junto ao mercado.

O bloco de ministros, assim, continua sendo uma instância intermediária submetida à forte concentração de decisões na presidente da República. Esta, por sua vez, tenta se equilibrar entre as pressões de PT e PMDB, cuja disputa eleitoral se trava à margem dos interesses do governo ou, pelo menos, os coloca em plano secundário.

É essa disputa que orienta o PMDB na mesa de negociações e que acaba por fortalecer a ação do líder do partido na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), produzindo em consequência a fragilização do Vice Presidente Michel Temer, cujo papel institucional o submete compulsoriamente à defesa do governo também.

Em tempos de guerra – como se caracteriza a eleição para os partidos políticos -, o general na frente de batalha ganha supremacia informal sobre o comandante que traça a estratégia a partir do gabinete. É o que ocorre hoje em relação a Temer e Cunha – o primeiro empenhado em conciliar interesses do governo e do partido; o líder, ocupado apenas do segundo.

O desafio da presidente continua sendo o de administrar a luta entre PT e PMDB. Para isso, terá de ser mais firme com seu partido e mais condescendente com o aliado que se ressente da falta de isonomia no tratamento político.

 

Trata-se de focar nas demandas essenciais a um e a outro, deixando o desgaste para as que, não atendidas, causem menos problema.

 

 

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