Barbosa erra ao cobrar privacidade em ambiente público de lazer durante licença médica

Barbosa erra ao cobrar privacidade em ambiente público de lazer durante licença médica

João Bosco Rabello

09 Agosto 2010 | 21h16

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Foto: Ed Ferreira/AE

Não se pode pôr em dúvida a afirmação do ministro Joaquim Barbosa quanto a problemas de saúde que limitam sua atividade no Supremo Tribunal Federal (STF).

Nem é disso que tratam seus críticos dentro do próprio tribunal, mas da falta de uma iniciativa sua na direção de uma solução funcional definitiva que não estenda os efeitos do paciente aos contribuintes na fila de espera do julgamento dos 13.193 processos sob sua guarda.

As sucessivas licenças do ministro o afastaram do trabalho desde 26 de abril, o que o torna o campeão de processos estocados, apesar de poupado  de distribuições no período da licença.

Qualquer trabalhador já estaria submetido ao regime do INSS, sem ônus para seu empregador, e lutando por um laudo pericial que lhe garantisse aposentadoria por impossibilidade de exercer plenamente suas atividades.

A nota oficial do ministro, em reação ao registro, pelo Estadão, de sua presença num bar de Brasília, depois de comparecer a festa na cidade, repete um padrão político de responder a questionamentos objetivos com a teoria conspiratória. No caso, a de vítima de grupos que o querem fora do STF.

Teria obrigação de nominar os conspiradores, já que seus principais críticos estão dentro do próprio STF e assumindo publicamente a cobrança por uma solução. “Que se defina essa situação”, disse Marco Aurélio Mello.

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, vai além: “Não há coerência entre a postura de não trabalhar por um problema de saúde, que é natural, qualquer pessoa pode ter, e de uma vida social onde isso não é demonstrado”, pondera.

Como se vê, os críticos de Barbosa se expõem, o que invalida a tese conspiratória de que se vale o ministro.

Barbosa chama de “fabricantes de escândalos” os repórteres que registraram sua presença num bar em Brasília e compara-os aos paparazzi – fotógrafos que invadem ambientes privados para obter fotos de celebridades e vendê-las a preços milionários.

Diz que “sorrateiramente” teve a privacidade invadida em momentos de lazer recomendados pelos médicos que o tratam.

É mais uma interpretação em causa própria que reforça a avaliação de que os homens públicos brasileiros não se consideram obrigados a prestar contas e acham que o espaço público é privado.

Por essa visão distorcida, um ministro da suprema corte brasileira considera sorrateira e invasiva uma foto sua, durante licença médica, em um dos bares mais badalados da Capital,  freqüentado por jornalistas, políticos e empresários e a considera de “qualidade duvidosa”.

Seja lá o que essa última avaliação queira dizer – e independentemente da sinceridade de Barbosa quanto à sua dificuldade em suportar as longas sessões do tribunal -, essa postura justifica as críticas que tem recebido.