Arruda desiste de recurso contra cassação para evitar intervenção

João Bosco Rabello

22 de março de 2010 | 18h57

José Roberto Arruda agora é definitivamente ex-governador de Brasília: como previu este blog (De volta à Polícia Federal), anunciou há pouco sua decisão de não recorrer contra sentença do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-DF) que cassou seu mandato.

O fez em carta aos seus advogados, divulgada pelos mesmos,  em que justifica sua decisão como fruto de uma reflexão na prisão que o levou a concluir que ajuda mais Brasília nesse momento com sua ausência.

Esse trecho da carta denuncia o objetivo principal de Arruda: evitar a intervenção na Capital, cujos desdobramentos agravariam mais ainda a sua situação e de muitos outros personagens da cidade – os que já se sabe envolvidos na operação Caixa de Pandora e os que ainda irão aparecer.

O gesto ainda produz o argumento que seus advogados precisam para tentar a sua liberdade: o de que uma vez fora do governo, não representaria mais riscos ao trabalho da Justiça, cuja obstrução o levou à prisão.

De quebra, evita o desgastante processo do seu impeachment, a essa altura inevitável. Ainda poupa parte da Câmara Distrital de confirmar as acusações de falta de isenção para julgá-lo, feitas pelo Procurador-Geral Roberto Gurgel e respaldadas pelo Ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto.

Tudo isso para facilitar a viabilização da eleição indireta que poderá nomear seu sucessor para um tampão até outubro.

Claro, a carta transborda sentimentalismo e faz até uma referência ao presidente Lula que, com certeza, dispensaria tal distinção, até porque a frase permite interpretação dúbia.

“Sou grato, também, a Sua Exa o Sr. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva – e ao seu governo, sem cujo apoio não teríamos feito tudo que fizemos”.

A íntegra da carta:

“Ao  agradecê-los pelo trabalho que tem feito na minha defesa nas diversas frentes, com o apoio de competentes e leais colegas de profissão desejo manifestar, em especial à Dra. Luciana Lossio, que sustentou a nossa defesa no TRE – o meu desejo de não recorrer ao TSE , mesmo consciente do nosso bom direito.


Não tenho a culpa que querem me imputar. Resisti a um inquérito que já ultrapassa 180 dias. Suportei as pressões, as traições, os flagrantes montados, as farsas, as buscas e apreensões, os vazamentos de documentos para fomentar o escândalo, o abandono do Democratas, a prisão, 180 dias de inquérito, 40 dias de prisão.


E até agora eu não fui ouvido uma única vez ! Neste final de semana, imobilizado na cama de uma cela, pensei muito sobre tudo isso e, sobretudo, nos dois mais recentes episódios: a decisão do TRE e o cateterismo a que me submeti, confirmando uma doença coronariana que eu não tinha antes de enfrentar essa luta.


Pensei na minha família, nos amigos de verdade, no trabalho que fizemos por Brasília nesses 3 anos, nas 2000 obras, nas 200 escolas de educação integral, nas 1000 novas salas de aula, no novo sistema viário, pistas, duplicações, viadutos, nas 12 cidades mais pobres que há 20 anos esperavam por asfalto, esgoto, escolas, centros de saúde, vilas olímpicas, postos policiais, nos condomínios regularizados, enfim, em tudo que fizemos para colocar ordem na cidade e nas contas públicas. O fim das vans piratas, das invasões, os 2000 ônibus sem nenhum  aumento de passagens – 3 anos de governo sem nenhum aumento de passagem – os parques, o Noroeste [bairro], os 65.000 pais de famílias empregados nas obras do governo.


E concluí que posso ajudar mais Brasília, no seu aniversário de 50 anos, com a minha ausência do que com a minha presença. Divergem-se os conflitos e as paixões. Por isso decidi solicitar a vocês, meus advogados, que não recorram ao TSE, apesar do bom direito que vos assiste. Recorrer seria prolongar o drama.


Acatando a decisão do TRE. Responderei  os processos como cidadão comum, longe das paixões e dos interesses políticos. Saio da vida pública.


Espero, apenas, que, meus sucessores não deixem que as obras sejam interrompidas, todas já com recursos assegurados e na sua fase final. As obras não são minhas, são da cidade.


Sou grato a toda a minha equipe de governo que, com eficiência e determinação, foi fundamental no cumprimento dos nossos objetivos.


Sou grato, também, a Sua Exa o Sr. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva – e ao seu governo, sem cujo apoio não teríamos feito tudo que fizemos.


Com a paz que já me assiste neste momento de despedida, lembro que “Há homens livres nas celas e homens presos nas ruas” – O meu corpo-matéria sofre desgastes, mas nunca tive tanta liberdade de espírito.


Leio, em Eclesiastes: “Sabedoria é a capacidade de discernir a verdade por trás das aparências. Quem é capaz disso não se perturba diante dos conflitos”. Pode demorar, mas a verdade se estabelecerá. Tenho fé que serão identificados os interesses que contrariei, as propostas indecorosas que não aceitei, os hábitos que repeli.


A vida é cíclica. Já vivi altos e baixos. Aplausos e vaias. Vitórias e derrotas. Vida  que segue.


Serei eternamente grato à grande parte da população que me elegeu e que me apoiou mesmo nos momentos mais difíceis. Peço ainda que transmitam meus agradecimentos ao dr. Alckmin, dr. Gerardo Grossi, dr. Bulhões e dr. Ferrão.


Agradeço também, ao verdadeiros amigos, as correntes de oração e especialmente à Flávia, de cuja coragem, carinho e amor verdadeiro retirei as forças necessárias para superar tantos obstáculos.


Não posso negar que a doença coronariana que me levou ao cateterismo – e agora a cuidados especiais – foi variável importante nesta decisão. Já vivi o bastante para saber que as razões políticas muitas vezes ultrapassam os limites do Direito – e que a humildade de saber parar pode valer mais que a mais triste e destemida insistência”.

José Roberto Arruda

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