Apagão, veneno na veia

João Bosco Rabello

05 de fevereiro de 2014 | 16h09

O apagão de energia é uma das falhas de gestão que chegam diretamente ao consumidor, ou seja, ao eleitor, sem que o governo possa explicá-la em linguagem simples, dada a tecnicidade que envolve o sistema elétrico. Fica para o cidadão a certeza de que algo vai mal, como ocorre quando a crise econômica atinge o seu bolso.

É tudo o que o governo teme no campo econômico, onde o debate ainda se desenvolve em bases acadêmicas, que não tocam o contribuinte. É quando a inflação mostra todo o risco embutido para quem lhe reduz a importância, pois através dela é que os preços afetam o consumidor e arruína mandatos.

Se o governo ainda consegue conter os efeitos da economia no cotidiano do cidadão, numa corrida contra o relógio até outubro, o apagão de ontem – o décimo da gestão  Dilma-, funciona como um alarme para quem tem sua luz cortada subitamente. Ontem, calcula-se, foram 12 milhões os desafortunados.

Os outros nove apagões  vão longe na memória, embora não sejam esquecidos. O de ontem, porém, ocorre já com a campanha eleitoral  em curso, piorando o humor do contribuinte com os serviços públicos, que reprovou nos protestos de junho de 2013. Trânsito infernal, criminalidade em alta, transportes coletivos em colapso, sistema de saúde caótico – e, agora, falta de energia.

A maior parte dessas mazelas não tem no governo federal o responsável único. O conjunto da obra atinge a toda a cadeia política – do prefeito ao presidente da República, passando pelos governadores e o Legislativo em todas as suas instâncias. Mas a falta de energia tem efeito demolidor sobre o governo federal.

O governo não conseguiu ainda produzir uma explicação, mas apesar disso, nega que a causa esteja na insuficiência de fornecimento. Acusa um “estresse hídrico” para contestar a avaliação de especialistas de que o sistema funciona no limite e que o fato pode se repetir. Seria um desastre para a campanha da reeleição da presidente Dilma.

A informação está publicada, lado a lado, nos principais jornais e portais noticiosos, com o discurso do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), afirmando que o País parou, no lançamento das diretrizes de sua candidatura presidencial. Mera coincidência, já que os eventos foram simultâneos, embora não venha a faltar quem veja nisso uma conspiração midiática.

Embora amparado em pesquisas que mantêm a presidente no patamar dos 45%, o otimismo do governo e do PT com a vitória no primeiro turno há muito se dissolveu. A comemoração não se dá por uma variação de dois a três pontos para cima, mas por não se registrar queda. O índice não é confortável para quem tenta a reeleição, para não dizer que é de risco.

Dilma já tem muito o que evitar e uma crise de energia é mais do que o previsto, mas está aí, a desligar a luz de milhões de pessoas, distribuídas por todas as regiões do país. É, politicamente, o imponderável, embora administrativamente seja má gestão. Eleitoralmente, apaga os efeitos da redução da conta de luz promovida ano passado.

 

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