“Aloprados” com DAS e Poder

João Bosco Rabello

10 de dezembro de 2012 | 13h33

Se comparadas as informações da Polícia Federal sobre a ex-chefe de Gabinete da Presidência da República, Rosemary Noronha, e seus cúmplices na máquina pública, com as declarações dos porta-vozes do governo e do PT, conclui-se que o país desconhecia um novo tipo de “aloprado” – aquele com DAS, cargo estratégico e  intimidade com o Poder.

O Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o presidente do PT, Rui Falcão, concordam na tese de que as ações de Rosemary, do ex-diretor da Agência Nacional de Águas, Paulo Vieira, e do segundo homem da Advocacia Geral da União (AGU), José Weber Holanda, são isoladas e não comprometem nem governo e nem partido.

Falcão chegou a classificá-los de “militantes” sem importância e sem respaldo do PT. Cardozo sustentou em depoimentos no Congresso que não havia motivos para indiciar a ex-chefe de Gabinete de Lula e Dilma por formação de quadrilha, ainda que àquela altura a operação já tivesse produzido 23 indiciamentos e 40 mandados de busca e apreensão.

Por mais boa vontade, não há como atribuir à fala do ministro simples precipitação. A dimensão do cargo e a experiência política de seu ocupante conspiram contra o benefício da dúvida e apontam mais para uma postura partidária de blindagem de Lula, Dilma e governo. De Falcão não se esperaria nada diferente do que disse. Foi até moderado, parecia mesmo enfastiado com coisa tão menos importante que o mensalão.

Rosemary foi indiciada por formação de quadrilha menos de 24 horas após o depoimento do ministro, quase ao mesmo tempo em que seu cúmplice, José Weber de Holanda afirmava ao jornal O Globo, que há mais procuradores do Estado envolvidos na rede criminosa de venda de pareceres. Primeira declaração típica de quem não se mostra disposto a pagar o pato sozinho.

Afora a confissão que a declaração de Falcão encerra de que o governo adota o critério da militância para preenchimento de cargos estratégicos, a tentativa de desqualificar os três principais indiciados como “mequetrefes”, acrescenta ao episódio o pouco caso com que partido e governo tratam a esfera pública.

Os “aloprados” de ontem – violadores de sigilos, autores de dossiês falsos, operadores de caixa-dois e outros “malfeitos” -, eram ilustres desconhecidos, personagens do submundo do crime, das quais o partido lança mão historicamente para o chamado trabalho sujo.

Mas, agora, não. Mequetrefes ou militantes de vôo próprio, batem as asas no céu do poder, embalados pelo prestígio da funcionária fisicamente mais próxima da presidente e de seu antecessor, ainda que no escritório de representação em São Paulo.

Considerado o contexto, é legítima a conclusão de que o PT traduz aloprado por todo aquele militante cujo mal não está em fazer a coisa errada, mas fazê-la de forma errada. Ou seja, o que vacila e é apanhado com a boca na botija.

Tanto faz se opera no submundo ou em cargos estratégicos de governo. Com relação a esses últimos, porém, a velha saída de abandoná-los à própria sorte, exige mais que frases de efeito: é preciso blindá-los  para sustentar o discurso da negação – o de sempre.

 

 

 

 

 

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