Afirmação de liderança de Marina fragiliza aliança

João Bosco Rabello

10 de outubro de 2013 | 15h30

O governador Eduardo Campos cumpre o papel de vender a unidade de propósitos entre seu partido, o PSB, real e registrado, e a Rede, de Marina Silva, que permanece um projeto ao qual ela não renunciará. Faz parte dessa defesa a veemência empregada para garantir o aval de ambos à aliança recém firmada, onde se encaixa a afirmação de Campos de que “está redondamente enganado quem imaginar que existe contradição (programática)”.

Imaginação é preciso muita, mas para descobrir qual a estratégia do governador capaz de disfarçar as contradições entre PSB e Rede, que ele nega e sua nova parceira confirma a cada declaração. O estranho não é o conteúdo das declarações da ex-ministra, mas o momento em que ela escolhe para dar nitidez às contradições – na sequencia imediata do anúncio de acordo com o governador.

Adiar o enfrentamento das questões que efetivamente separam PSB e Rede (afora o fato desse último não existir ainda), é compreensível no contexto de um acordo entre segmentos políticos diferentes, com alguns propósitos comuns, mas com distâncias oceânicas em relação a temas graves como o modelo de desenvolvimento para o país.

Afinal, a aliança é um acordo – e acordos existem para administrar interesses diferentes.

Por isso, é mera retórica o tratamento de aliança programática que Marina insiste em pregar. A aliança é tão súbita quanto pragmática e não poderia ser diferente. O que ainda se precisa descobrir com o tempo é o grau de sinceridade do desprendimento político que a ex-ministra tenta passar com a decisão pela aliança com o PSB.

Por ora, não conseguiu remover a dúvida que assalta todos os espectadores desse movimento estratégico eleitoral.

Assim no singular mesmo, porque a dúvida é quanto à capacidade de Campos e Marina administrarem as diferenças que o governador nega. Se Marina tem o dobro de intenções de voto, Campos tem o partido e uma candidatura posta antes da chegada da recente parceira.

Se Campos tem nos resultados de seu governo seu orgulho e sua plataforma, o modelo que levou a eles é de causar arrepios aos ambientalistas que Marina representa.

O ataque imediato e público de Marina ao deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), em tom de veto absorvido pelo governador pernambucano, é consistente como síntese do conflito que vai prevalecer na campanha e, eventualmente, num governo de ambos.

É a questão ambiental que move Marina – cláusula pétrea de sua pregação, com o radicalismo que ficou ilustrado na formação do ministério do Meio- Ambiente que comandou, em que todas as áreas eram necessariamente dirigidas por representantes de ONGs com discurso unificado.

Sem diálogo com outros segmentos econômicos, principalmente (mas não só) o agronegócio, e asfixiado pelo messianismo de sua ministra, Lula esperou o desgaste chegar a um ponto de ebulição e, ao pedido de Marina para sair, pagou o táxi, como se diz popularmente, para definir uma separação desejada.

Até hoje não se conhece o pensamento da ex-ministra sobre outros temas, mas sabe-se de seu envolvimento com a questão ambiental. Por isso, o míssil teleguiado sobre a cabeça de Caiado, eleito pelos ambientalistas como o símbolo do atraso do produtor brasileiro, que apregoam como realidade.

O contexto mostra, desde já, que Marina pretende ter a supremacia nesse campo, na aliança com o governador – na campanha e, eventualmente, no governo. O que desautoriza a suposição de que o Campos possa ter menos dificuldade que Lula e Dilma Rousseff na convivência com Marina.

A divergência não é pequena e nem rasa: é grande e profunda, porque representa o conflito entre o modelo de desenvolvimento de Campos – se tomada a sua gestão em Pernambuco -, e o de uma liderança com 20 milhões de votos supostamente transferíveis, que o vê ( o modelo) como ameaça ao planeta, o que prega em tom místico.

Os votos rurais que poderiam vir com o apoio de Caiado, irão para o PSDB, via DEM, e para o governo, via PMDB. O estrago é maior, na medida em que a causa do agronegócio é suprapartidária – vale dizer, o segmento tem representantes em todos os partidos, como ficou claro como propaganda da OMO na votação do Código Florestal.

As reações de Caiado e da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) à ex-ministra já deram esse mapeamento dos votos ruralistas – Caiado apontando para Aécio Neves (não em Serra) e Kátia para o PMDB ao qual se filiou recentemente, a convite do vice-presidente Michel Temer (SP), com o aval e o entusiasmo da presidente Dilma Rousseff.

Não se tenta, como sugere o governador, minimizar a importância estratégica do movimento que ele e Marina protagonizaram ao selar a aliança. Mas de não minimizar os problemas que desafiarão ambos na consolidação dessa parceria, cuja chance de êxito começa na postura de não evitar o enfrentamento das diferenças e passa pela costura de um pacto de convivência política.

As primeiras manifestações de Marina vão em sentido contrário, sugerem afirmação de liderança na aliança e afastam aliados potenciais do governador já alinhados antes da chegada da ex-ministra. Desafinou o coro ainda mal ensaiado pelos dois lados.

Não é pouco para confundir eleitores, disseminar a insegurança e a desconfiança ainda muito cedo. A leitura do fato político pelo eleitor, que costuma ser direta e sem subterfúgios, deve ser hoje a de que Marina foi pra cima e Campos piscou.

Ao debate público protagonizado por ambos seria natural preceder a discussão interna com o objetivo de estabelecer as bases da convivência. Ao se insinuar possível candidata e atirar no agronegócio, Marina disse a que veio ao PSB.

Quer, no mínimo, espaço para exercer sua liderança na cláusula pétrea de qualquer programa que vier a assinar: a sua bíblia ambiental.

E, no máximo, se impor como candidata em lugar do governador.

 

 

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