A Rede, partido ou seita?

João Bosco Rabello

18 de fevereiro de 2013 | 14h27

O partido a cuja criação se entrega Marina Silva nasce na era pós-internet, cujo início é, mais ou menos, simultâneo à construção do senso crítico mundial com relação ao meio-ambiente, capital político que viabiliza a empreitada da ex-senadora.

Já nasce, pois, a partir da Internet, meio com o qual conta para atender a exigências da legislação eleitoral relativas à representatividade e legitimidade populares. É também um segmento político, originalmente identificado como “verde”, que forma uma comunidade na rede virtual, acostumada a utilizá-la e dela fazer seu meio de discussão e integração.

A Internet é , no entanto, um meio com poder de alcançar fins, porém não de executá-los no plano legal e constitucional, nesta ou em qualquer outra legislação política que vier a substituí-la no contexto da democracia representativa que rege o processo brasileiro.

Não é, portanto, alternativa ao Parlamento e nem aos poderes constituídos, mas forte instrumento de pressão e mobilização para influenciá-los. Isto posto, é original e salutar que dela se sirva o novo partido não só para a sua criação formal, mas para disseminar sua doutrina e programa. Apenas.

Se o nome escolhido dá ênfase a esse aspecto estratégico, os primeiros conteúdos que tentam explicar o projeto indicam rejeição aos aspectos formais do sistema político vigente, sem oferecer propostas que ajudem a eliminar as causas que o corrompem.

Ou de relativizar algumas delas, como impor conceito próprio de ficha-limpa, absolvendo politicamente condenados pela justiça, que considerem injustiçados. Nada diferente do comportamento do PT em relação aos seus mensaleiros.

O partido não será governo e nem oposição, segundo Marina, frase que remete à declaração do ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, alvo de chacota por dizer o mesmo na fundação do PSD.

Não é também um partido para eleições, segundo , de novo, sua idealizadora, e que também não está à caça de parlamentares no exercício do mandato para integrar seus quadros. O que deve ser extensivo a governadores, prefeitos e vereadores.

Se não é para eleições e não busca adeptos com mandato, pelo menos no médio prazo não deverá se materializar no plano da política real, limitando-se por algum tempo ao meio virtual.

É mais sensato concluir, porém, que a Rede é uma ideia amparada no diagnóstico correto das mazelas do sistema brasileiro, mas com propostas de transformação assentadas num discurso puritano e autoritário, padrão recorrente no perfil da política Marina, que pretende o monopólio do debate ambiental, como deixou clara sua gestão à frente do Ministério do Meio-Ambiente, conduzido exclusivamente por dirigentes de ONGs.

O projeto de novo partido veta doações de campanha vindas de setores avaliados como nocivos à saúde humana – cigarros, bebidas, agrotóxicos e armas – coerente com sua doutrina ambiental, mas indiferente à liberdade de escolha de cada cidadão com o que lhe parecer mais apropriado para seu consumo, dentro da Lei.

Esse tipo de regra, por doutrinária, não autoriza a previsão de se restringir ao âmbito partidário, na eventual ascensão ao governo, em que a tendência será a de transferir ao Estado poder intervencionista sobre as liberdades individuais, como bem atesta o comportamento do PT.

Além disso, não enfrenta a questão das doações, que não está na natureza da atividade das empresas que as fazem, mas nos vícios de comportamento do político brasileiro, cuja síntese se viu agora no julgamento do mensalão,em que os réus se defenderam das acusações de corrupção admitindo o crime de caixa-dois, por entendê-lo institucionalizado no país.

Nesse contexto de apropriação da fórmula de salvação nacional, a Rede não inova: repete o PT que, na sua origem, com base no mesmo diagnóstico, era puro demais para fazer alianças, rejeitando mesmo aquelas que levaram o país à redemocratização – desde a eleição de Tancredo Neves à assinatura da Constituição de 88. E hoje tem seus principais dirigentes de então, condenados à prisão.

É duplamente vencida a fórmula: o Psol, enojado do PT, a repete, com base na superioridade moral de seus integrantes e na convicção de que o Estado deve controlar desde direitos autorais até enredo de escola de samba, como receita de socialização da cultura e de sua “correta” formulação.

Como ser honesto não depende de discurso, mas de prática, faria bem a todos se a Rede revogasse o princípio rascunhado de tribunal independente que absolve seus transgressores, assim como revelar em que fontes pretende obter suas doações – incluindo principalmente a informação sobre eventual parceria, para esse fim, com  ONGs que a integram – e que venham a integrá-la-, nacionais ou estrangeiras.

E apresentasse um programa ao país que não se limitasse às questões ambientais, mas que trouxesse ideias para os gargalos da Educação, Saúde, Segurança e Infraestrutura, para ficar com os que representam os maiores problemas brasileiros na atualidade.

Por ora, as regras e discursos moralistas lhe dão mais a configuração de seita que de partido. No que o nome ajuda.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.