A política de guerrilha

João Bosco Rabello

17 de outubro de 2014 | 16h06

Candidatos à reeleição estão mais expostos que seus desafiantes porque ambos – situação e oposição – discorrem sobre a chamada “obra feita”, expressão utilizada habitualmente como síntese da gestão que está submetida à avaliação do eleitor.

Parte significativa do êxito de um candidato à reeleição está na razão direta de suas realizações, e vice-versa, em uma relação que determina o índice de aprovação de seu governo. No caso da presidente Dilma Rousseff, esse índice é baixo – de 37% -, historicamente adverso para um candidato a novo mandato no exercício do cargo.

A candidata governista já esteve em patamar bem mais favorável antes das manifestações de junho de 2013, quando esse índice de aprovação de governo despencou da casa dos 70% para abaixo de 40%, oscilando para menos na sequencia do crescimento da inflação, que despertou o contribuinte para a situação da economia, antes encoberta pela estratégia de crédito fácil e consumo alto, aplicada para deter a cirse internacional de 2009.

Nesse tipo de cenário, a estratégia em campanha combina programas eleitorais que apresentam imagens e números cinematográficos, que superdimensionam o pouco que deu certo e minimizam, quando não ocultam, o que der margem às críticas de analistas, formadores de opinião e imprensa, na tentativa de manter o eleitor distante da realidade dos resultrados.

Não é tarefa das mais fáceis, mas pode até dar certo quando o vilão da história não é a economia – e quando esta se faz sentir no cotidiano do cidadão. Ou seja, com a economia em céu de brigadeiro, defeitos tendem a ser tolerados, falhas ganham menos peso na decisão do eleitor e pode-se alcançar a vitória eleitoral mesmo que a gestão, em uma avaliação sóbria, seja ruim.

O PT desfrutou de , pelo menos, 10 dos 12 anos em que está no poder de condições econômicas amplamente favoráveis para desenvolver uma gestão de excelência, mas contentou-se com a ampliação dos programas sociais, combinada com farta distribuição de direitos civis, quase todos já previstos na Constituição ou em legislação comum.

Satisfez-se com aquilo que sustentava uma administração populista até ser surpreendido pela insatisfação com os serviços públicos, decorrente da falta de realizações nas áreas de infraestrutura (causa do desconforto com a mobilidade urbana) , segurança, saúde e educação.

Para agravar a situação, a presidente Dilma decidiu mudar o modelo econômico aprofundando a crise e estabelecendo daí em diante uma adminsitração errática da economia, ampliando o fosso com o mercado e perdendo investimentos, chegando à chamada recessão técnica, com previsão de crescimento abaixo de 1%.

Isso explica, em parte, a reprodução, na campanha, dos governos do PT com os do PSDB, muito embora os 12 anos que os separem produzam dados ilusórios como o de que Fernando Henrique Cardoso entregou a economia com uma inflação de 12%, omitindo o dado fundamental de como a recebeu – na casa dos 1000%.

Para o eleitor, em um debate essa discussão torna-se complexa e monótona, não lhe acrescenta nada, mas consegue obter o resultado desejado de levar o adversário a desmentir as afirmações e, assim, ficar prisioneiro de um debate inútil.

O problema é que é a terceira vez que o PT concorre com a mesma estratégia e ela não tem se mostrado eficiente diante do desgaste da má gestão, do mensalão e de novos escânalos que correm na esfera judicial.

A perda de eficiência dessa estratégia permitiu a Aécio Neves enfrentar em condições favoráveis o que seus antecessores na disputa presidencial pelo PSDB não conseguiram. Restou ao PT a alternativa já aplicada a Marina Silva de desconstruir o adversário, fiel ao estilo político de guerrilha que caracteriza a legenda: qualquer opositor não deve ser apenas enfrentado, mas eliminado, método autoritário que se complementa com o regime de cooptação de aliados para a formação de uma base de apoio político tão grande quanto cara, desembocando nos escândalos de corrupção que irrigam esse sistema.

Esse processo , como era de se prever, encontrou seu estágio de esgotamento. A desconstrução de Aécio não se mostra fácil como ocorreu com Marina, mais frágil como candidata sem uma estrutura partidária como a do PSDB, sem interlocução suficiente no quadro partidário para construir alianças que a desse vigor para o embate e de biografia política saudável, porém curta.

É de se esperar, como apontam as reportagens dos jornais e revistas, que o PT insista nesse caminho que não permite ao opositor manter-se permanentemente na defesa de uma pauta mais construtiva, sob pena de com a indiferença aos ataques deixar passar como verdades versões construídas para destruir sua imagem.

Nesse contexto, serve ao governo a ausência de um debate melhor nivelado porque fica poupado de debater maus resultados, protege-o da discussão sobre a alternância de poder, e evita abordagens que exporiam as mazelas de uma administração partidária que não sabe – ou não diz – que rumo pretende dar a um eventual quarto mandato.

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