A opção pelo confronto

João Bosco Rabello

12 de março de 2014 | 14h22

Era previsível a confirmação da reação hostil da bancada do PMDB da Câmara ao governo, desde que este se decidiu pela estratégia de isolar o líder Eduardo Cunha (RJ), optando pelo Senado como alternativa para as negociações com o partido.

O isolamento de Cunha representa o da bancada da Câmara, que o fez porta-voz ao reconduzi-lo recentemente ao cargo, reiterando sua liderança. Não importa aqui, para efeito do raciocínio político, a imagem pessoal do parlamentar.

Desta pretendeu se valer o governo para associar as iniciativas de Cunha a interesses pessoais contrariados,  reforçando junto à opinião pública o caráter fisiológico da legenda – de resto, extensiva a todas as demais.

A imagem do político brasileiro – e, por extensão, do Congresso Nacional, é das piores entre  as instituições nacionais, o que  faz da estratégia do governo apenas uma forma de reforçá-la. O PMDB, pela ação palaciana, torna-se o símbolo desse desgaste.

É uma opção pelo enfrentamento, a que se recorre quando os canais de diálogo não são mais considerados viáveis, algo muito distante da realidade e das possibilidades políticas do governo, no caso.

Já houve situações mais radicalizadas no ambiente político que tiveram solução pactuada. O que parece nortear a condução dada pelo governo é o interesse hegemônico do PT, que encontra na maior capilaridade eleitoral do rival na aliança, seu principal obstáculo.

Essa percepção produziu no PMDB uma reação de guerra. É indiscutível que o partido não está representado no governo Dilma com a proporcionalidade mínima em relação ao PT, embora seu apoio tenha peso igual. O PT tem 17 ministérios e o aliado, 5.

Por ora é visível que a bancada da Câmara voltou sua artilharia contra o Planalto graduando as ações em volume e intensidade. A aprovação de uma comissão para acompanhar as investigações que envolvem a Petrobrás, na Holanda, por exemplo, tem alcance mais simbólico que prático.

Uma CPI da Petrobrás seria um tiro de guerra. Mas a comissão parece ter seu alcance limitado a manter nos holofotes o problema enfrentado pela empresa, agravando o processo de desgaste que já a vem corroendo. Nada mais que isso.

A convocação do ministro da Saúde, Arthur Chioro, cuja aprovação é prevista para hoje, pode causar mais estrago, pois tem o objetivo de atingir diretamente o programa Mais Médicos, carro-chefe da campanha do seu antecessor, Alexandre Padilha, ao governo paulista, com reflexos positivos na campanha  de reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Não é provável que iniciativas como essas duas – e outras que poderão ou não surgir ainda -, vá além da legítima pressão de uma base insatisfeita com seu governo. Porém o tiroteio e a provável defecção de quadros do partido no apoio à aliança com Dilma registram, mais que números, uma insatisfação que afetará o empenho da legenda nos estados em favor da presidente.

O Planalto certamente tem alguma conta que indica uma relação custo/benefício a justificar a opção pelo confronto. Esta certamente está apoiada em pesquisas que registram uma reação positiva do eleitorado à atitude da presidente, que se traduzirá em dividendos políticos.

De qualquer forma, a sorte está lançada. A aliança entre os dois partidos não voltará a ser a mesma que orientou a vitória de 2010. Se reeleita, Dilma terá que contar de novo com o PMDB que, se reduzido pela prioridade dada ao PT na campanha, será mais adversário que aliado, como o desenho da hora já projeta.

 

 

 

 

 

Tendências: