A herança maldita em 2015

João Bosco Rabello

13 Janeiro 2014 | 17h00

Embora pareça óbvio, o governo tem considerado importante reafirmar à praça, em geral, que os ministros que assumirem o cargo na mudança ministerial determinada pelas eleições, têm mandato-tampão – e curto: não há compromisso com a permanência além de 31 de dezembro, em caso de reeleição da presidente Dilma Rousseff.

O aviso é pró-forma: composições indispensáveis no segundo turno podem determinar novo desenho ministerial por força de compromissos considerados decisivos para uma eventual vitória da candidata oficial. Faz parte da dinâmica política, embora a relação de forças atuais, na base de sustentação, continue a mesma na hipótese aventada.

Um eventual segundo mandato reforçará o cacife político de Dilma, mas imporá também o resgate de compromissos para fortalecer sua base em período necessariamente mais difícil que o atual.

O governo adia todas as providências inevitáveis para promover um ajuste econômico , ainda por quantificar, que afetará o humor do contribuinte, já mais desconfiado quanto ao futuro, como atestam as pesquisas que medem o otimismo do brasileiro médio.

A consulta, realizada pelo Ibope, detectou que a taxa de otimismo do eleitor, embora alta (57%), é menor em 17% com relação à anterior (72%), na primeira queda registrada desde 2009. Há uma relação direta entre esse resultado e a redução de sensação de bem estar do contribuinte, habitualmente traduzida na política por “afetar o bolso”.

É um dado preocupante para o governo, cujo esforço de maquiagem dos números da economia, visa especificamente a evitar que a realidade por trás das planilhas não se materialize antes das eleições.

Outra pesquisa já detectara uma maioria expressiva desejosa de mudanças profundas no governo, o que não exclui o voto em Dilma, mas serve para medir a fragilidade do sistema defensivo do Planalto.

Se reeleita, Dilma precisará de uma sustentação muito mais sólida no Congresso, especialmente porque terá de administrar o custo econômico da condução eleitoral dada á gestão do governo da metade do mandato para cá. Ou seja, terá de promover o ajuste fiscal adiado.

Se a exclusão de um novo mandato retira a camisa de força política e traz liberdade pessoal para medidas de desagrado popular, permanecem os compromissos com a bancada de apoio e, principalmente, seu partido, o PT, pela preservação do projeto de poder.

Nesse sentido, 2015 será pior para Dilma, se reeleita, do que para  qualquer um de seus atuais oponentes, se derrotada, porque a estes restará o crédito por , aí, sim, uma “herança maldita”.

Mas não será fácil para nenhum que vier a vencer. Na verdade, o próximo presidente da República terá de administrar o passivo referente a duas eleições – a da própria Dilma e a de sua campanha pela reeleição, saia vencedora ou não.