A estética de Niemeyer e a vida humana

João Bosco Rabello

27 de abril de 2010 | 18h19

Há poucas horas um casal foi atropelado no eixão norte, em Brasília. Cena cotidiana. A diferença é que não foi uma pessoa, mas duas – e ao mesmo tempo.

A cena nos remete a velha e , até aqui, infrutífera discussão sobre qual o limite entre a estética – marca obsessiva do genial arquiteto Oscar Niemeyer -, e a vida humana.

O comentário está vinculado à intocabilidade do projeto original de Brasília, que estabeleceu uma espécie de  ditadura arquitetônica – ou uma ditadura da estética.

Em nome dela, impede-se soluções que adequem o crescimento da cidade – que deveria, o quanto possível, ter sua dose de espontaneidade -, às necessidades básicas de uma sociedade.

Faltam calçadas, esquinas, cultura e prioridade à vida humana. Sobram discussões acadêmicas, governos corruptos e indiferença judicial.

Alguns tentam até agora sustentar que o governo do deposto José Roberto Arruda era bom. E , por isso, deveríamos tolerar seus pecados para que concluísse seu projeto.

O problema é que o projeto Arruda não diferia em nada do projeto Roriz. É feito de obras e tem a alma das empreiteiras.

Era apenas mais organizado o que, de início, deu a impressão de diferenciado.

Nada mais ilusório. Arruda fez apenas obras, assim como Roriz. Seu roubo demorou a aparecer, porque também nele, era mais metódico. Mas era roubo sistêmico.

Caiu pela maior competência do seu antecessor e criador que, afrontado no índice de corrupção, o pôs na cadeia.

Certa vez, levado a comentar a crítica permanente de que suas obras são de uma estética universalmente reconhecidas, mas de pouca funcionalidade, Niemeyer respondeu:

– Meu compromisso é com a estética.

Aos 50 anos, e centenas de mortes de trânsito depois, é de se perguntar se o conceito de Niemeyer deve ser estendido além dos monumentos que nos valem prêmios universais de arquitetura.

O eixão que corta Brasília, de norte a sul, até ao aeroporto, não pode ter passarelas, sinais, defesas físicas para quem o atravessa. Morre-se nele contemplando a obra que salvou vidas.

Mas não dá para sair de casa para o trabalho, contemplar um casal atropelado e morto, numa pista sem qualquer defesa para o pedestre, e dar bom dia à estética.

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