A derrota das cúpulas

João Bosco Rabello

17 de março de 2014 | 17h00

A disputa territorial do espaço político parece ser mais forte do que as tentativas clássicas de acordo de cúpulas que caracteriza o atual estágio das relações entre PMDB e governo. Este, comprometido com o projeto hegemônico do PT, tenta amenizar os efeitos do confronto aberto de sua iniciativa com o principal aliado.

O que começa a ficar claro, em cenário paralelo, é que o recurso à mítica habilidade de Lula não surte o efeito mágico esperado. Pela simples razão de que o ex-presidente não se dissocia do projeto de seu partido.

Lula não quis a aliança com o PMDB no seu primeiro mandato e a ela se rendeu após a crise do mensalão que ameaçou seu governo. Desde então, administrou a convivência, projetando para um momento mais propício a separação.

Ela vem ocorrendo de forma gradual desde que a ocupação da estrutura de governo privilegiou o PT com 17 pastas e o aliado com cinco, numa desproporção ostensiva. Além disso, as pastas do PMDB têm a vigilância implacável de secretários-executivos do PT nomeados diretamente pelos presidentes do partido na última década.

Instrumentos decisivos para a preservação da força política regional dos partidos, esses ministérios têm a cadeira principal, e a de vice, indicados pelo Planalto, um método atípico e controlador, que reproduz o modelo adotado pelos governos militares com as secretarias de controle interno.

Essa camisa de força imposta aos aliados, porque extensivas a todos os partidos da base, confirma a estratégia hegemônica do PT que está na raiz da crise – e que torna remota a perspectiva de conciliação.

No governo, ou nele, o PMDB estará sempre em conflito com o PT, conclusão que deve ter levado o líder do partido na Câmara, Eduardo Cunha (RJ) a propor a revisão da aliança. Ela deixa de ter sentido político se a premissa do governo é a de que se ajuste aos interesses hegemônicos do PT.

O contexto reafirma o modo eliminativo do PT de fazer política, embasado no princípio da guerrilha e não do diálogo. É um método impositivo que já não consegue disfarçar o propósito hegemônico.

Na prática, o esquema de cooptação das pequenas  legendas corresponde a um partido único, ainda que um ajuntamento de siglas sem qualquer sintonia ideológica. Mas todas unidas em torno de um projeto de poder que não lhes diz respeito.

São as legendas de aluguel que não têm projeto de crescimento e cujos integrantes se alimentam do organismo estatal, não importando o governo da hora. Com essa união, o PT pretendeu isolar os partidos que lhe fazem sombra, de alguma forma, como o PMDB.

Não foi outra a percepção também do PSB quando decidiu sair da aliança. A senha para a ruptura foi do PT ao trair o acordo eleitoral para a prefeitura do Recife, episódio até hoje lamentado por Lula, que deu origem à candidatura do governador Eduardo Campos – que incomoda ainda mais por ser uma dissidência de esquerda.

O governo Dilma seguiu a cartilha do presidente do PT, Rui Falcão, com aval do marketing palaciano, convicto de que a guerra aberta com o PMDB renderia dividendos eleitorais maiores do que os efeitos colaterais políticos.

Desconsiderou que uma eleição presidencial se faz com a rede de apoios políticos regionais que, mais cedo ou mais tarde, se refletirão na preferência auditada pelas pesquisas de opinião.

Para que a estratégia do governo desse certo seria preciso que os índices de aprovação de governo e da presidente Dilma estivessem na estratosfera, o que faz parte de um passado tão

efêmero quanto de resgate remoto.

O deputado Eduardo Cunha é um daqueles políticos que fogem à regra clássica de dissimular os movimentos. Os anuncia com uma clareza solar, dizendo o próximo passo sem qualquer disfarce.

Convidado para conversar com o governo, deixou claro que as coisas continuam como estavam antes das nomeações ministeriais que pretenderam isolá-lo da bancada: “não vamos á posse porque não indicamos esses ministros”.

Cunha continua preso, como seus liderados, às alianças regionais. Sem materialização das promessas do PT de retirar candidaturas não competitivas, lançadas apenas para dificultar as do rival, não há conciliação à vista.