Zumbi e Palmares hoje

Eder Brito

20 de novembro de 2013 | 11h35

Por Eder Brito

Zumbi dos Palmares nasceu na Serra da Barriga, localizada na então capitania de Pernambuco. Não se sabe ao certo quando nasceu, mas certamente morreu em 20 de novembro de 1695. Esta data a história fez questão de registrar, pois o Governador da Capitania, senhor Caetano de Melo tratou de escrever uma carta endereçada ao Rei, explicando como colocou a cabeça de Zumbi exposta em praça pública, para “atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam Zumbi um imortal”. Exatos 318 anos depois do triste acontecimento no Brasil Colonial, Zumbi continua símbolo da conscientização em torno da igualdade racial. E a Serra da Barriga, região onde nasceu transfigurou-se em um dos 5.570 municípios brasileiros. O local é hoje União dos Palmares, uma das principais cidades do Estado de Alagoas, banhada pelo Rio Mandú e ocupada por mais de 62 mil habitantes.

A situação em União dos Palmares não anda das melhores quando comparadas a outras cidades do país. O IDH do Município atingiu 0,593 em 2010, segundo o IBGE, bem abaixo da boa média nacional de 0,730. É sempre bom lembrar que o IDH considera indicadores de saúde, educação e longevidade. Quanto mais próximo de 1, melhor. Quanto mais próximo do 0, pior. É um município produtor de cana-de-açúcar, com um certo nível de excelência econômica. Mas quando se olha para a gestão pública, é possível encontrar causos e estórias que ajudam a explicar o baixo índice.

Em Julho de 2013, a Prefeitura ameaçou decretar falência e a interrupção de todos os serviços públicos essenciais. Uma dívida de um milhão e 600 mil reais com a Telemar bloqueou todas as contas do poder executivo municipal. O Prefeito Carlos Alberto Borba de Barros Baía, o Beto Baía (PSD) teve que sentar com os secretários municipais, vereadores e procuradores da cidade para tentar encontrar uma solução para a situação crítica. Os culpados foram apontados pelo grupo: todas as gestões anteriores, que adquiriram as dívidas e deixaram a herança maldita para trás.

O estresse na gestão municipal seguiu acirrado. Em setembro deste ano, a discussão em torno dos serviços municipais levou o vice-prefeito Eduardo Pedroza a agredir com um soco o vice-presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de União dos Palmares, Mário Bispo de Barros. Segundo versões da imprensa local, o soco teria sido motivado por discussões em torno do SAAE – Serviço Autônomo de Água e Esgoto do município. Mário Bispo já foi diretor do SAAE. Em 2013, o mesmo cargo já passou pelas mãos de Marcos Pedroza e Gustavo Pedroza, respectivamente irmão e filho do vice-prefeito que escolheu os sopapos como ferramenta para o diálogo. O caso está todo registrado em delegacia da cidade. Duas semanas depois da briga, água e esgoto saíram da pauta da discussão e deram lugar à luz. Os servidores municipais encontraram a energia elétrica cortada em todos os prédios da Prefeitura quando chegaram para trabalhar. Tudo por falta de pagamento.

Além dos desafios orçamentários e políticos enfrentados pelo Prefeito Beto, o município que já foi quilombo também anda discutindo um assunto historicamente incômodo: trabalho escravo. Em 2012, o deputado federal João Lyra (PSD-AL) virou réu em ação penal junto ao STF, acusado de crime de redução à condição análogo à escravo. O motivo seriam as condições em que vivem os trabalhadores de sua usina de cana-de-açúcar, uma das maiores do Nordeste, localizada em… União dos Palmares. A defesa do deputado nega as acusações.

Segundo o Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo do Ministério do Trabalho, as jornadas de alguns empregados tinham pelo menos seis horas-extras por dia e chegavam a 24 horas de trabalho contínuo. O alojamento era sujo, apresentava lixo acumulado e era carinhosamente batizado de “cadeião” pelos próprios trabalhadores. A visita do Ministério do Trabalho foi feita em 2008, apenas 313 anos após a morte de Zumbi dos Palmares.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: