Zacarias, Noronha, Enxada e Voto

Eder Brito

12 de fevereiro de 2014 | 10h41

Por Eder Brito

Em 1948, Vitor Nunes Leal pôs na praça o seminal “Coronelismo, Enxada e Voto”. Simplificando muito, pode-se dizer que demonstrava o capital político à época diretamente ligado à propriedade rural, concentrada na mão de algumas figuras. Seis décadas mais tarde, Alceu Castilho lançou “Partido da Terra”, quase uma herança involuntária da obra de Nunes Leal, mais intencionalmente irônica, este sim um estudo da ligação direta de políticos com a propriedade de terras ao longo do Brasil, fruto de uma pesquisa de três anos.

Zacarias virou município em 1991 e foi citado na pesquisa de Castilho. E não se trata de homenagem ao falecido companheiro de aventuras de Renato Aragão, mas da pequenina cidade paulista localizada na região de São José do Rio Preto. Hoje com quase 22 anos de emancipação e pouco menos de três mil habitantes, o território foi fundado como povoado por Antônio Zacarias. Na década de 40 era apenas um pedaço dentro da cidade de Monte Aprazível. Depois da “onda de emancipações” que veio junto com a Constituição de 1988, tornou-se um dos milhares de municípios brasileiros, com Prefeitura e Câmara próprias. Em 2004 e 2008, o prefeito eleito foi Lourenço Zacarias. Filiado ao PT, elegeu-se duas vezes em uma improvável coligação PT-PP-PFL. Também da família, Eliana Teixeira dos Santos Zacarias tentou a vaga de vereadora. Não conseguiu e ficou na suplência. A falta de função pública foi logo resolvida, no entanto, quando ela foi nomeada diretora municipal de educação.

Uma rápida olhada nos despachos do Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP) e, nos arquivos de 2008, você encontrará Eliana e Lourenço figurando em um processo assinado pelo então conselheiro Antônio Roque Citadini (hoje presidente do TCE, também conhecido como conselheiro e ex-vice Presidente do Corinthians). No processo, o Tribunal considera legal a admissão de Eliana. Entre as admissões analisadas, também estava a de Denirce Antonia Espani Zacarias.

Quase 700 quilômetros distantes dali, chegamos a Olímpio Noronha, município mineiro que em 2012 ganhou a eleição de “o melhor café do Brasil”, depois da análise de algumas dezenas de degustadores profissionais do mundo inteiro. Mas além do feito cafeeiro, Noronha também carrega similaridades com Zacarias. Em 2004 e 2008 viu Sérgio Noronha ser eleito e reeleito como Prefeito. Noronha é produtor de café e pertence à famosa família, originária do Olímpio, a quem são atribuídos grandes feitos na Guerra do Paraguai e, portanto, motivo da homenagem.

Olímpio Noronha e Zacarias nos fazem pensar nas obras de Nunes Leal e de Castilho. Quanto tempo pode durar a influência de certos grupos na política local brasileira? Quantos municípios ainda são “fazendas” de algumas famílias? A pesquisa de Castilho foi lançada em 2012, antes das eleições municipais. Uma rápida atualização e podemos pensar que a situação talvez esteja mudando nas duas cidades. Naquele ano, o vencedor em Zacarias não foi da tradicional família. Arnaldo Aparecido Dionísio do PSDB foi eleito. Em Noronha, a vitória ficou com Carlos Alberto de Castro Pereira, o Beto, do DEM.

Arnaldo foi vereador da região de 1977 até 2000 e teve outro mandato de 2005 a 2008. Também é sócio da AMS Prometal, empresa que atua na cidade há 20 anos. Em Noronha, Carlos Alberto de Castro Pereira já foi prefeito duas vezes: de 2001 a 2004 e de 2005 a 2008 e agora voltou para o terceiro mandato. A coligação que elegeu Arnaldo dizia que “Zacarias Pode Mais”. Em Minas, Noronha elegeu Beto pela coligação “Olímpio Noronha Melhor Para Todos”.

Pode mais mesmo? Melhorou para todos? De verdade? Mudou? Precisa mudar? As respostas não cabem a este post. Nem ao Castilho, tampouco ao Victor Nunes Leal. Só mesmo os eleitores lá daquelas bandas é que podem se arriscar nesta parte da análise.

 

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